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Quarta-feira, 03 de dezembro de 2003
Valor
Berzoini limita mudanças e compromete
votação da emenda paralela no Senado
César Felício, De Brasília
O ministro da Previdência, Ricardo Berzoini, limitou as negociações
sobre o texto da emenda paralela da reforma previdenciária, colocando
em risco o cronograma acertado entre governo e oposição
para votar as duas emendas constitucionais da reforma no Senado já
na próxima semana. Berzoini resiste à regra de transição
para o aumento da idade mínima proposta pelo senador Paulo Paim
(PT-RS), aceita pelos líderes. Pela proposta, a idade mínima
seria flexibilizada. Para cada ano trabalhado pelo servidor além
de 35 anos de serviço, seria retirado um ano do limite para aposentadoria.
A possibilidade de entendimento diminuiu também por iniciativa
dos oposicionistas e dos 15 representantes sindicais do funcionalismo
que acompanham as negociações. Eles introduziram novas exigências
em relação ao texto paralelo, além das já
feitas até a semana passada. Em uma reunião dos sindicalistas
e Paim com Berzoini, foi apresentada a proposta de diminuir de 30% para
20% o redutor sobre as pensões que excederem R$ 2,4 mil. A decisão
de ampliar a pauta foi tomada em uma reunião dos sindicalistas
e senadores logo pela manhã, em uma reunião na liderança
do PFL.
"Vão ter que ceder em todos estes pontos que estamos colocando,
se não, não tem acordo", afirmou o líder do
PFL no Senado, José Agripino Maia (RN). Se a oposição
obstruir o processo de votação, será impossível
votar a PEC paralela este ano. O governo conseguiria votar apenas a reforma
da Previdência em segundo turno.
O comportamento irritou os negociadores do governo. "É preciso
entender que não pode haver com a PEC paralela o mesmo processo
de negociação que houve com a reforma tributária
no Senado e com a reforma previdenciária na Câmara, se não
este será um processo sem fim", afirmou o líder do
PT no Senado e relator das duas emendas da previdência, senador
Tião Viana (AC).
A PEC paralela reúne propostas de modificação na
Previdência do interesse de parlamentares tanto da base do governo
quanto da oposição. Foi um instrumento encontrado pela base
governista para conseguir a aprovação da emenda constitucional
oficial sem alterações. Mas a falta de aprovação
da emenda paralela não prejudicaria apenas os senadores dissidentes.
Os governadores contam com a emenda para terem flexibilidade na fixação
da alíquota da contribuição dos inativos e do subteto
nos Estados.
De acordo com a emenda oficial, os Estados estão obrigados a adotarem
a mesma alíquota de contribuição previdenciária
da União, de 11%. Caso um governador seja derrotado na votação
de sua assembléia sobre este ponto, o governo estadual sofreria
retaliações por parte da União. O texto da emenda
permite alíquotas diferenciadas por Estados, desde que o equilíbrio
atuarial fique comprovadamente mantido.
A PEC paralela também permite que os Estados fixem um subteto
para o Executivo diferente do salário do governador, o que interessa
aos governadores do PMDB Germano Rigotto, do Rio Grande do Sul, e Luiz
Henrique Silveira, de Santa Catarina. Na negociação de ontem,
este aliás foi o único ponto da emenda paralela em que Berzoini
admitiu mais concessões. De acordo com o líder do PMDB no
Senado, Renan Calheiros (AL), o governo não se opõe à
possibilidade de um subteto único nos Estados, desde que ele seja
facultativo.
Com a falta de resultados nas reuniões de ontem, uma nova rodada
de discussões acontecerá hoje, no gabinete do presidente
do Senado, José Sarney.
Prazos para o fim da guerra fiscal
podem sair da tributária
De Brasília
Na reta final das negociações com a oposição
e ainda sem um acordo político consolidado nem mesmo na própria
base, o governo pode ceder à pressão dos governadores e
retirar da reforma tributária os prazos para o fim da guerra fiscal.
O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), explicitou
ontem ao PFL e PSDB a proposta final do governo, após ter conversado
na noite de segunda-feira com o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. A expectativa do governo é que seja possível fechar
um acordo hoje.
O Executivo concordou em destinar R$ 2 bilhões ao Fundo de Desenvolvimento
Regional do Nordeste, Norte e Centro-Oeste a partir de 2004, para investimento
em infra-estrutura, desde que fique estabelecido no texto que só
poderão ser prorrogados, por 11 anos, os incentivos fiscais concedidos
até 30 de setembro deste ano. Se não for fixada a data para
o fim da guerra fiscal no texto constitucional, o governo só destinaria
os R$ 2 bilhões aos Estados a partir de 2005.
O governo também anunciou que é possível aumentar
o repasse ao Fundo de Participação dos Municípios
(FPM) em R$ 1 bilhão, a partir de 2004. Os repasses seriam anuais,
todo mês de novembro, para facilitar o pagamento do décimo-terceiro
salário. A verba extra representaria o aumento de um ponto percentual
no montante do FPM, que hoje é de 22,5% do IPI e Imposto de Renda.
Até o momento, os obstáculos para a celebração
de um amplo acordo político não foram contornados. De acordo
com parlamentares, o PMDB, repetindo o discurso de seus governadores,
está pressionando o governo a manter indefinidamente a guerra fiscal.
A posição teria sido explicitada ao governo pelo presidente
do Senado, José Sarney.
O líder do partido, Renan Calheiros (AL), participaria de um jantar
com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, ontem. Segundo Mercadante,
as duas propostas sobre o fundo regional - implantação em
2004 ou 2005 - foram apresentadas ontem para consulta dos senadores. "Se
o fim da guerra ficar para 2005, o Fundo Regional também ficará".
Mercadante argumentou que a unificação do ICMS e a criação
de cinco novas alíquotas - cuja implantação está
prevista para a segunda fase da reforma - representariam, na prática,
o fim da guerra fiscal. No entanto, até 2005, prevaleceriam as
pendências judiciais entre os Estados sobre o tema.
Apesar das sinalizações feitas pelo governo, não
foi fechado um acordo porque ainda há divergências entre
os técnicos sobre a redação da proposta. Um dos problemas
é a prorrogação da CPMF. O governo alega que agora
só é possível aprovar o texto que prorroga a contribuição,
com alíquota de 0,38%, por quatro anos, como veio da Câmara.
"A CPMF tem que ser aprovada como está. Depois de aprovada,
publicada e promulgada, podemos estabelecer que ela vai variar entre 0,38%
e 0,08%", disse Mercadante. A redução gradual da CPMF
é uma exigência da oposição. Para que isso
possa ocorrer no futuro, o governo, segundo Mercadante, apresentaria uma
outra proposta de emenda constitucional. Junto com ela, seria enviado
ao Congresso um projeto de lei complementar estabelecendo mecanismos de
redução da carga tributária (gatilho), levando-se
em conta a relação dívida pública-Produto
Interno Bruto. (MLD)

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