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Quinta-feira, 04 de dezembro de 2003
Valor
Impasse na PEC paralela ameaça
2º turno
César Felício, De Brasília
A reforma da Previdência no Senado continua travada pelo impasse
entre governo e senadores a respeito da regra de transição
para o aumento da idade mínima para aposentadoria no setor público.
Ontem, o relator da emenda paralela à reforma, Tião Viana
(PT-AC), apresentou uma proposta que não foi aceita pelos negociadores
dos sindicatos e da oposição, os senadores Paulo Paim (PT-AC)
e José Agripino Maia (PFL-RN).
Pela proposta de Viana, a idade mínima poderia ser reduzida para
os servidores que tiverem pelo menos 35 anos de contribuição
no serviço público, à razão de um ano para
cada ano trabalhado além deste limite. Os sindicatos e os oposicionistas
querem que no limite de 35 anos seja incluída toda contribuição
tanto para o serviço público quanto para o privado.
"Uma regra de transição diferente desta não
é aceita pelos governadores, porque as perdas são muito
grandes. Esta é a nossa grande dificuldade para viabilizar um acordo",
afirmou Viana. Pelo texto da emenda principal da Previdência, o
servidor que tiver cumprido o tempo de serviço e quiser se aposentar
antes de 60 anos, se homem, ou 55, se mulher, terá descontos no
valor da aposentadoria, perdendo a integralidade.
Sem acordo para a votação da emenda paralela, que reúne
modificações na reforma previdenciária desejada pelos
senadores, a votação em segundo turno da emenda principal
da reforma da Previdência este ano está ameaçado.
"A regra de transição que foi proposta quebra um acordo
que levou seis senadores, inclusive eu, a votar a favor da reforma no
primeiro turno", disse Paulo Paim.
O PFL ainda reivindica a extensão para os maiores de 75 anos da
isenção da contribuição previdenciária,
prevista na emenda paralela apenas para os portadores de doença
incapacitante. Mas neste ponto está isolado. Paulo Paim não
considera este ponto fundamental. "Acima dos 70 anos, praticamente
todos os brasileiros possuem alguma doença incapacitante",
afirmou.
No texto da emenda paralela apresentado ontem por Viana, foram feitas
outras modificações, todas já consensuais. O subteto
nos Estados será fixado pelo governador por projeto de lei em sessenta
dias, podendo variar do salário do governador até o salário
do desembargador. Será possível aos Estados instituírem
um subteto único, por meio de projeto de lei a ser apresentado
em 90 dias.
Estados e municípios tiveram uma derrota, com a retirada do dispositivo
que dava aos entes federados a liberdade de fixarem livremente a alíquota
da contribuição previdenciária para inativos, até
o limite de 11% cobrado pela União. Segundo Viana, os negociadores
da proposta perceberam que o texto como estava escrito podia acabar com
a isenção da contribuição para os servidores
que ganhem aposentadorias inferiores a R$ 2,4 mil. Haverá paridade
entre ativos e inativos, para os que tiverem pelo menos 20 anos de serviço
público.
Hoje é o último dia para que a emenda paralela da Previdência
saia da Comissão de Constituição e Justiça
do Senado e viabilize o cronograma de votações acertado
entre governo e oposição que prevê a votação
das duas emendas constitucionais, a paralela e a principal, na próxima
semana. Segundo Viana, uma reunião na manhã de hoje procurará
novamente fechar um acordo.
Governo tenta hoje resolver "problemas"
da Cofins
Ribamar Oliveira e Rodrigo Bittar, De Brasília
O governo vai tentar hoje, durante reunião no Palácio do
Planalto, encontrar soluções para os "problemas concretos"
criados pela Medida Provisória 135, que acaba com a cumulatividade
da Cofins e eleva a alíquota do tributo de 3% para 7,6%. O principal
problema resulta da "implantação pela metade"
do regime de tributação não cumulativo para a Cofins.
Participarão da reunião os ministros da Casa Civil, José
Dirceu, e da Fazenda, Antônio Palocci, e os líderes do governo
no Senado, Aloísio Mercadante (PT-SP), na Câmara, Aldo Rebelo
(PCdoB-SP) e o relator da MP 135, deputado Jamil Murad (PCdoB.
A "implantação pela metade" decorre do fato de
que os bens e serviços importados continuam sem pagar Cofins. Essa
taxação só será permitira quando a reforma
tributária for aprovada pelo Senado. Assim, os setores da economia
que utilizam uma quantidade muito grande de insumos importados sofrerão
um impacto muito grande com a mudança da Cofins. A alíquota
do tributo passará de 3% para 7,6% e eles não terão
créditos relativos a seus insumos para deduzir. Eles tenderão
a repassar esse custo para os preços e perderão competitividade.
O governo está particularmente preocupado o efeito sobre as mercadorias
que utilizam trigo, entre eles, o pãozinho, as massas e os biscoitos.
Como a maior parte do trigo consumido no país é importado,
as indústrias deste setor terão um forte aumento da carga
tributária e tenderão a repassar o aumento de custo para
os preços dos seus produtos, que são de grande consumo popular.
Este é um "problema concreto" que deixará de
existir, como lembrou uma fonte do governo, quando o governo cobrar a
Cofins sobre o trigo importado. Neste momento, a indústria poderá
utilizar o tributo pago na importação do trigo como crédito
para abater a Cofins incidente sobre o seu produto.
A questão, no entanto, é saber o que deve ser feito para
não penalizar as empresas desses setores até que o governo
possa cobrar a Cofins sobre os importados. Este assunto foi tratado ontem
por empresários ligados ao Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social (CDES) durante reunião com o secretário da Receita
Federal, Jorge Rachid, e o secretárecretário-executivo adjunto,
Arno Augustin. O relator Jorge Murad também participou do encontro.
Os empresários querem que o governo dê créditos aos
insumos importados. A Secretaria da Receita Federal é contra essa
alternativa com o argumento de que não pode conceder crédito
a quem não pagou o tributo. "A Receita argumenta que a concessão
de crédito nessa situação pode ser encarada como
subsídio", explicou o deputado Jamil Murad.
Os empresários reclamam também do tamanho da alíquota
e do impacto da mudança no setor de serviço, que é
intensivo de mão-de-obra. Alguns setores, como o têxtil,
alega que compra o algodão de pessoas físicas, que não
pagam Cofins e, por isso, não podem dar crédito. Após
três horas de reunião, a maioria dos empresários saiu
descontente com o desfecho da conversa, que não apresentou resultado
prático.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria
Têxtil, Paulo Skaf, foi o autor da proposta de que o texto final
do projeto de conversão da MP 135 permita ao governo federal mudar
a incidência da Cofins em setores que estejam sendo mais prejudicados,
instrumento classificado por ele como " válvula de escape
" ou " brecha " . " A MP poderia ter um parágrafo
dizendo que alguma distorção notada posteriormente não
precisaria de uma lei especial para que possam ser concedidos créditos
" , sugeriu.
Skaf disse que os secretários apenas ouviram e reiteraram a necessidade
de o governo não perder receitas, ainda que tenham reafirmado o
compromisso de não elevar a carga. O deputado Murad considerou
" inteligente " a proposta de estabelecer mecanismos para corrigir
eventuais distorções. " Tratamento especial é
uma das saídas", disse. Segundo ele, há dois caminhos:
diminuir a alíquota ou aliviar a área de serviços.
Uma outra possibilidade, disse o relator, é um " mix "
das duas alternativas.

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