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Sexta-feira, 05 de dezembro de 2003
Valor
Intervenção de Dirceu
viabiliza aprovação da PEC paralela na CCJ
César Felício, De Brasília
Uma intervenção do ministro da Casa Civil, José Dirceu,
garantiu um acordo ontem entre governo e oposição para viabilizar
a aprovação da emenda paralela da reforma da Previdência
ainda este ano no Senado. Graças à ação do
ministro, o governo concordou com a proposta de regra de transição
para o aumento da idade mínima de aposentadoria para o funcionalismo
defendida pelos oposicionistas e o ministro da Previdência, Ricardo
Berzoini, foi obrigado a ceder.
Pelo texto aprovado ontem pela Comissão de Constituição
e Justiça do Senado, o servidor poderá se aposentar antes
da idade de 60 anos, se homem, ou 55, se mulher, sem qualquer desconto
no valor de sua aposentadoria. Para isto, terá que ter mais de
35 anos de tempo de contribuição, sendo pelo menos 25 anos
no serviço público, 15 anos de carreira e cinco anos no
cargo, se homem. Se mulher, são 30 anos de contribuição,
com os outros prazos iguais. Cada ano a mais trabalhado significará
um ano a menos na idade mínima.
A proposta de Berzoini era conceder o benefício apenas ao servidor
que tivesse mais de 35 anos de serviço público. Os demais
teriam que se adaptar à regra da emenda principal da reforma da
Previdência, que diminui a aposentadoria proporcionalmente à
diferença de idade que faltar para a idade mínima.
"O José Dirceu foi fundamental", comentou o senador
Paulo Paim (PT-RS), que foi o negociador da proposta em nome dos sindicatos
de servidores.
Do lado da oposição, o líder do PFL, José
Agripino Maia (RN), abriu mão na CCJ das emendas para isentar de
contribuição previdenciária para os maiores de 75
anos. Segundo o pefelista, "foi preciso haver humildade perante os
fatos". Agripino afirmou que cedeu diante do recuo do governo em
relação à regra de transição.
Com o resultado de ontem, a emenda principal da Previdência deverá
ser votada em segundo turno na próxima semana. Já a emenda
paralela termina a sua tramitação no Senado no dia 19. A
primeira segue para a promulgação e a segunda, para a Câmara
dos Deputados, onde o presidente da Casa, João Paulo Cunha (PT-SP),
ainda não se comprometeu com a convocação extraordinária
em janeiro para acelerar a tramitação da emenda. Para cumprir
este calendário, a base governista terá que conseguir uma
proeza: realizar sessões deliberativas no Senado todos os dias,
inclusive sábados e domingos.
O caminho mais fácil, que seria a redução dos prazos
regimentais, precisaria do apoio de todos os líderes, e o do PDT,
senador Jefferson Péres (AM), não aderiu à idéia,
alegando ser contra a quebra das normas para aprovação de
emendas constitucionais por uma questão de princípio. O
pedetista afirmou, entretanto, que não pretende obstruir as sessões.
Presente na Câmara para participar de uma sessão solene,
Dirceu quebrou a sua própria promessa de não dirigir mais
a palavra à imprensa este ano para procurar capitalizar a operação
no Senado. "A aprovação é muito importante,
fruto de um acordo de todos os partidos. O país ganha, criando
as condições para crescer e gerar empregos", afirmou.
PMDB pede mais mudanças
na tributária
Maria Lúcia Delgado, De Brasília
O acordo entre todos os partidos para a tramitação rápida
da reforma tributária no Senado depende, agora, muito mais de habilidade
política para negociar a votação do que de concessões
no conteúdo do texto. O governo já concordou em estender
o prazo da guerra fiscal e enviar um projeto de lei industrial ao Congresso
no próximo ano, para atender ao PMDB, mas o partido decidiu reivindicar
ainda mais.
O PMDB, segundo o líder do partido no Senado, Renan Calheiros
(AL), quer ser o principal interlocutor da sociedade nas negociações
com o governo e exige que a desoneração da cesta básica,
insumos agrícolas, consumo de energia da população
de baixa renda e medicamentos de uso contínuo (com alíquota
mínima de ICMS, de 4%), seja implantada em 2004.
A desoneração, segundo o líder do PMDB, seria feita
por projeto de resolução, votado simultaneamente com a reforma.
Calheiros apresentou ao líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante
(PT-SP), uma lista com seis reivindicações, cuja mais polêmica
é a antecipação da desoneração da cesta
básica, pois teria grande impacto nos Estados do Centro-Oeste.
Na noite de ontem, os líderes dariam prosseguimento a reuniões
técnicas e políticas para encaminhar um acordo, mas o provável
é que uma definição só seja tomada na próxima
semana.
O PMDB pediu ainda que o governo envie em 180 dias, depois da promulgação
da proposta de emenda constitucional, um projeto de lei industrial, com
enfoque regional e concessão de incentivos federais. Os outros
pedidos do PMDB são: criação de um seguro para compensar
os Estados durante a unificação das alíquotas do
ICMS em 2005; repasse de R$ 2 bilhões ao Fundo de Participação
dos Municípios (FPM) em 2005 - o governo já concordou com
o repasse de R$ 1 bilhão - ; repasse dos R$ 2,2 bilhões
do Fundo de Desenvolvimento Regional (FDR) com base nos critérios
do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH); aumento do repasse da
arrecadação com royalties aos Estados produtores de petróleo.
A pressão política do PMDB, segundo o próprio Calheiros,
tem limites. "Vamos concretizar o que for possível nas negociações,
mas temos um compromisso fundamental com a governabilidade. O partido
não está ameaçando", tentou justificar Calheiros.
A avaliação política dos pemedebistas é que,
nos debates sobre a reforma tributária, a oposição
tem ganhado popularidade ao defender a redução da carga
tributária. "Essa é uma disputa política dos
partidos na interlocução com a sociedade, e o PMDB quer
reconstruir sua imagem", explicou o líder.
O governo acha que os impasses com o PMDB serão contornados, mas
a avaliação de parlamentares ontem é que essa nova
nuance política é um complicador. Ontem, além de
equacionar a pressão política do PMDB, Mercadante iniciou
conversas formais com os líderes do PFL, José Agripino Maia
(RN), e do PSDB, Arthur Virgílio (PSDB), para sondar a possibilidade
de um amplo acordo que reduza o tempo de tramitação da reforma
tributária. Os líderes oposicionistas informaram ao petista
que reunirão suas bancadas na terça-feira e darão
uma resposta sobre redução de prazos.
A oposição reconhece os avanços na proposta feita
pelo governo, mas vai exigir mais para facilitar a negociação.
Somente um acordo com todos os líderes pode reduzir o prazo de
tramitação e, se isso não ocorrer, colocaria em risco
a aprovação e promulgação da primeira etapa
da reforma, que mais interessa à União: prorrogação
da alíquota de 0,38% da CPMF e da Desvinculação de
Receitas da União (DRU).
"O governo sinalizou com a busca clara de um entendimento político
e um acordo de procedimentos para acelerar a reforma. Ou fazem um acordo
ou não conseguem votar isso antes do fim do ano. Já deram
muita coisa e agora é possível um começo de conversa",
reconheceu Agripino.
Governo quer desonerar
folha de pagamento só "no longo prazo"
Rodrigo Bittar e Maria Lúcia Delgado, De Brasília
O governo não quer ceder aos pedidos de redução de
alíquota da Cofins e nem dar tratamento diferenciado a qualquer
setor no texto da MP 135, que eleva a contribuição de 3%
para 7,6% sobre o faturamento bruto. Também não concordou
em desonerar a folha de pagamento como medida compensatória, neste
momento. "A intenção é manter a MP como está",
declarou ontem o secretário-executivo do Ministério da Fazenda,
Bernard Appy. Ele afirmou ainda que a hipótese de desonerar a folha
de pagamento é uma possibilidade considerada para o "longo
prazo" pelo governo. "Temos que ver se é viável
fazer tantas mudanças no sistema tributário num mesmo momento",
acrescentou.
A declaração do secretário foi feita à tarde,
ao falar sobre a reunião dos líderes da base aliada com
o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, com o próprio Appy e com
o secretário da Receita, Jorge Rachid, realizada pela manhã,
no Palácio do Planalto. Apesar da postura inflexível da
Fazenda e da Receita, os líderes da base acreditam que há
margem para negociação e esperam que a desoneração
da folha de pagamento das empresas, com a cobrança não cumulativa
do INSS sobre o faturamento, seja incluída no texto da própria
Medida Provisória 135.
"A opinião da burocracia é sem sangue na veia, mas,
na base aliada, corre sangue na veia. Se querem aprovar a medida provisória,
temos que encontrar uma solução. A desoneração
da folha resolve 90% dos problemas", avisou o vice-líder do
governo na Câmara, Beto Albuquerque (PSB-RS).
Para o vice-líder, a medida provisória não será
aprovada sem negociação e a prova de que o governo está
sensível aos problemas gerados pelo fim da cumulatividade da Cofins
é que uma nova reunião com o ministro Antonio Palocci e
com o secretário Jorge Rachid foi marcada para segunda-feira.
Além da desoneração da folha como medida compensatória
pela nova Cofins, os líderes pediram à equipe econômica
um levantamento das perdas de cerca de 10 setores produtivos, como empresas
de software, cerealistas, produtores de algodão, escolas, call
centers, transporte coletivo, e tíquete refeição.
O governo avisou que não reduzirá a alíquota de
7,6%. "Estão sendo estudadas medidas para resolver os problemas
mais angustiantes", disse o relator da MP, deputado Jamil Murad (PCdoB-SP).
A desoneração da folha, segundo ele, ameniza o impacto da
nova Cofins em todos os setores com intensa mão de obra, como hotelaria
e transporte público.
"Esse debate não pode ser apenas técnico, mas também
político. Não podem prevalecer apenas as questões
financeiras", disse. Para alguns setores, de acordo com o relator,
pode ser mantida a alíquota de 3%, desde que não haja impacto
na arrecadação. Segundo os líderes, Palocci apenas
alertou, na reunião, que quer a aprovação da MP até
o fim do mês e argumentou que não há fundamento nas
reivindicações de alguns setores produtivos.
Os líderes insistem que as compensações sejam incluídas
na própria MP da Cofins porque, segundo Beto Albuquerque, se houver
um "hiato" entre a aprovação da MP e a desoneração
da folha, várias empresas, especialmente do setor de serviços,
serão prejudicadas.
Jorge Rachid defendeu, também em entrevista após a reunião,
uma desoneração "gradual" da folha de salários
para que não haja impacto tributário na receita, e disse
que qualquer tratamento diferenciado para alguns setores representaria
perda de arrecadação. "O problema é que os que
ganham (com a mudança da Cofins) não falam nada, mas os
que perdem gritam muito", disse. O secretário-executivo da
Fazenda estima que a arrecadação federal poderá aumentar
em até R$ 4,8 bilhões com a mudança da Cofins, efeito
contábil que, segundo disse, será neutralizado até
2005.

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