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Segunda-feira, 08 de dezembro de 2003
Valor
Mesmo aprovada, reforma da Previdência
ainda dependerá de regulamentação
César Felício, De Brasília
O conjunto de duas emendas constitucionais negociadas entre o governo
e o Congresso para ajustar a Previdência social do setor público
ainda está longe de encerrar a sua tramitação no
Legislativo. Além das duas emendas constitucionais, há pelo
menos sete projetos de lei a serem votados no Congresso no próximo
ano e uma mini-reforma previdenciária a ser feita em cada Estado.
Os governadores precisarão enviar às Assembléias
Legislativos um projeto de lei definindo o subteto do Poder Executivo.
Haverá duas opções: ou um subteto só para
os servidores do Executivo, cujo limite irá variar do salário
do governador até o salário do desembargador. Esta proposta
precisa chegar aos deputados estaduais até 60 dias depois de promulgada
a PEC paralela. Entre a promulgação da PEC principal e a
paralela, irá vigorar o salário de governador como subteto.
A segunda opção dos governadores será criar um subteto
único, com um projeto de lei específico a ser enviado para
as assembléias. Neste caso, o subteto único será
o salário de desembargador.
As regras da aposentadoria dos policiais militares, bombeiros e civis
nos Estados também serão regulamentadas pelos governadores,
com aprovação dos deputados estaduais. E a cobrança
previdenciária dos inativos será outro desafio para grande
parte dos governos estaduais.
Se na esfera federal a contribuição entra em vigor logo
depois da promulgação, nos Estados ela precisa ser votada
pelas Assembléias Legislativas. Não poderá ser inferior
aos 11% estabelecidos para o nível federal, mas poderá ser
superior. Alguns Estados já estão adaptados a esta regra,
como São Paulo e Minas Gerais, que recentemente aumentaram os percentuais
de suas cobranças sobre os inativos.
No nível federal, o ministro da Previdência, Ricardo Berzoini,
está em uma situação confortável. O que representa
economia imediata para o Tesouro da União, como a contribuição
dos inativos, o aumento da idade mínima, a elevação
da contribuição previdenciária do regime geral e
o teto de aposentadorias no funcionalismo, não precisa de regulamentação
para entrar em vigor. O que representa concessões para os servidores
negociadas ao longo do ano, depende de projeto.
Berzoini deverá enviar ao Congresso a proposta que estabelece
as regras de reajustes de aposentadorias e pensões para os servidores
que estão fora das normas de paridade. Será necessário
um projeto de lei para definir o que é doença incapacitante,
cujo portador será isento de contribuição previdenciária
até o limite do dobro do teto do regime geral de Previdência
social, e um outro projeto de lei para determinar o que são portadores
de necessidades especiais, que podem ter a aposentadoria antecipada.
O governo ainda enviará um projeto de lei definindo as regras
próprias de aposentadoria para policiais federais e outra proposta
para definir o valor da aposentadoria para os servidores que não
tiverem direito à integralidade.
Fora do ambiente do sistema público, devem ser enviadas as propostas
de regulamentação do que está sendo chamada de "inclusão
social", ou seja, o pagamento de benefícios para os trabalhadores
que estão excluídos do sistema, como donas de casa, por
exemplo.
Esta regulamentação deverá vir junto com a proposta
de realização de um censo previdenciário a cada cinco
anos, um modo de dar publicidade às contas dos regimes previdenciários
e dos primeiros efeitos da reforma.
Um dos pontos mais polêmicos da legislação infra-constitucional
que deverá ser enviada é a regulamentação
dos fundos de Previdência complementares. O formato destes fundos
já está parcialmente definido tanto na emenda principal
da Previdência como na emenda paralela. Os fundos serão fechados,
de gestão pública e com participação em seu
conselho de representantes dos três poderes e do Ministério
Público.
Se tudo ocorrer como o governo deseja, com o Senado funcionando sete
dias por semana até o fim do mês, a emenda principal da Previdência
deve ser votada em segundo turno pelo plenário da Casa até
10 de dezembro e a PEC paralela deve ser aprovada em segundo turno até
o dia 22.
Ainda há dúvidas sobre o cronograma na Câmara. A
princípio, a PEC paralela só deverá ter tramitação
sumária entre os deputados se o presidente da Casa, João
Paulo Cunha (PT-SP), fizer a convocação extraordinária
dos deputados, hipótese à qual o dirigente continua resistindo.
Cunha está sendo pressionado pelo Senado e por governadores, que
dependem da emenda paralela para terem liberdade para a fixação
de seus subtetos.
Bancadas analisam acordo
da tributária
Maria Lúcia Delgado, De Brasília
A versão final da reforma tributária, definida sexta-feira
em reunião entre senadores e o ministro da Fazenda, Antonio Palocci,
será submetida a partir de hoje às bancadas de todos os
partidos no Senado. Com o aval de Palocci, a proposta prevê a redução
gradual da alíquota de 0,38% da CPMF a partir de 2005, caso o cenário
macroeconômico seja favorável, com crescimento do Produto
Interno Bruto e redução na relação dívida
pública X PIB. Para aceitar essa proposta, o governo exigiu como
garantia a possibilidade de criar um novo imposto (não cumulativo
e não incidente sobre movimentações financeiras)
se houver crise econômica ou instabilidade financeira provocada
por fatores internacionais. A intenção do governo é
votar o primeiro turno da reforma na quarta-feira.
"Se houver necessidade de aumento da arrecadação,
em função da conjuntura econômica, se cria um novo
imposto, ou se aumenta a alíquota de algum imposto já existente.
Mas, não poderá ser uma CPMF 2", justificou o relator
da reforma no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR). "A carga tributária
não irá aumentar. Isso não é retórica.
É um comportamento cumprido no primeiro ano do governo", afirmou
Palocci, após a reunião decisiva com senadores.
Na primeira fase da reforma, a CPMF será promulgada por quatro
anos com 0,38%. No fim deste ano ou no início de 2004 o governo
terá que enviar uma nova proposta de emenda constitucional para
permitir a oscilação da CPMF entre 0,38% e 0,08%, e juntamente
com a PEC um projeto de lei complementar com os critérios do gatilho
redutor.
O acordo atendeu também pleitos do PMDB, dos partidos de oposição,
e elevou o repasse de verbas aos municípios. O ministro também
concordou em antecipar a desoneração de ICMS da cesta básica
para 2004. Pelo acordo feito com Palocci, Também neste caso foram
impostas condições: os Estados produtores terão uma
compensação, definida em lei complementar. Como a unificação
das alíquotas do ICMS ficará para a segunda etapa da reforma
(2005/2006), a desoneração estaria condicionada à
implantação dessa mudança.
O acordo fechado na sexta-feira prevê que 120 dias depois da promulgação
final da reforma tributária - que dependerá de nova votação
na Câmara em 2004 -, será enviado um projeto de lei complementar
para regulamentar quais produtos da cesta básica serão desonerados,
qual será a alíquota de ICMS e como serão compensados
os Estados produtores. Segundo Palocci, o texto ficou melhor que o projeto
original e permitirá não somente a melhora do ambiente econômico,
mas também a cobrança de impostos de mais qualidade para
as empresas.
Um ponto pendente na proposta ainda é a guerra fiscal. De acordo
com o relator, o prazo final para a concessão de incentivos poderá
ser a data da promulgação da emenda (após votação
na Câmara), ou a data de implantação da unificação
das alíquotas do ICMS (em 2005 ou 2006), ou até mesmo a
data em que o governo enviar o projeto de lei industrial ao Congresso
(180 dias após a promulgação da emenda na Câmara).
Em relação ao Fundo de Participação dos Municípios
(FPM), o governo concordou em aumentar ainda mais o repasse. Em 2004 serão
repassados 23,5% do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e Imposto
de Renda. Esse acréscimo de um ponto percentual equivale ao repasse
de R$ 1 bilhão em novembro, para os municípios pagarem o
décimo-terceiro salário. A equipe econômica concordou
em repassar, a partir de 2005, R$ 1 bilhão nominal, também
em novembro, além da parcela de 23,5%.

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