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Quarta-feira, 10 de dezembro de 2003
Valor
Sem acordo, PFL tentará estender
tramitação da tributária na CCJ
Maria Lúcia Delgado, De Brasília
O governo quer deflagrar a partir de hoje a votação da reforma
tributária na Comissão de Constituição e Justiça
(CCJ) do Senado, mas até a noite de ontem não havia acordo
político para encurtar o prazo de tramitação. O PFL
insiste em estender as negociações com o Executivo e exige,
por exemplo, o aumento do repasse do Fundo de Participação
dos Municípios de 22,5% para 25% do IPI (Imposto sobre Produtos
Industrializados) e IR (Imposto de Renda).
Os líderes governistas e da oposição se reuniram
na noite de ontem e, apesar de as negociações terem avançado,
o governo sustenta que não há como aumentar a verba do FPM.
Já foi acertado que o repasse passará a 23,5% em 2004, e
haverá, em 2005, uma verba adicional de R$ 1 bilhão nominal
ao fundo dos municípios. "Não há mais recursos
disponíveis. Só dá para negociar o que é possível",
afirmou o líder do governo, Aloizio Mercadante (PT-SP), após
a reunião. Os líderes terão uma nova conversa decisiva
na manhã de hoje e querem fechar o acordo antes da sessão
da CCJ, em que deve ser iniciada a votação da reforma.
O PFL também reivindica alguma concessão do governo na
Medida Provisória 135, que acaba com a cumulatividade da Cofins,
e quer mudanças na redação do texto para que não
haja possibilidade de cobrança da Cide (Contribuição
de Intervenção sobre o Domínio Econômico) sobre
bens e serviços importados, e nem de criação de uma
nova contribuição social sobre importados. Na reunião
de ontem, Mercadante disse que o Senado terá autonomia para discutir
os setores que não pagarão a nova alíquota da Cofins,
de 7,6%. Um dos setores que pode ser preservado é o de prestadores
de serviços. "Avançamos um pouco e o clima está
melhor", disse o líder do PFL, José Agripino Maia (RN).
Os líderes também acertaram que após a promulgação
da primeira fase da reforma, o governo enviará uma nova proposta
de emenda constitucional para acertar os artigos 149 e 195 da Constituição,
de forma a não permitir a cobrança de Cide sobre importados.
Para facilitar o diálogo com o PFL, o governo ainda pode concordar
com o fim da cobrança progressiva de ITBI e do imposto sobre heranças.
Os ministros da Casa Civil, José Dirceu, e da Fazenda, Antonio
Palocci, tentam minimizar os atritos com a oposição. Dirceu
telefonou ontem para o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio
(AM) e, na ocasião, conversou com o líder do PFL, que estava
ao lado do tucano. Segundo o pefelista, o ministro sinalizou que as negociações
teriam prosseguimento e que o governo ouviria as ponderações
do PFL.
O PSDB reuniu a bancada ontem e decidiu apoiar, segundo o líder
do partido, "o corpo da proposta". "O PFL não está
só. Queremos uma solução para essas reivindicações.
O governo que não tenha a ilusão de que vamos largar o PFL
sozinho", disse Arthur Virgílio.
Também não foi concluído ontem o texto final do
artigo que vai tratar do prazo para concessão de incentivos fiscais.
Havia uma redação praticamente acertada, mas novos problemas
surgiram: os senadores querem que o texto seja claro e que todos os incentivos
fiscais concedidos até a data da promulgação definitiva
da emenda sejam convalidados. Outro ponto indefinido é se a prorrogação
dos incentivos por 11 anos constará no texto constitucional.
Parecer sobre MP 135
será apresentado hoje
César Felício, De Brasília
A Câmara dos Deputados deve conhecer hoje o relatório sobre
a medida provisória que acaba com a cumulatividade da Cofins e
aumenta a sua alíquota de 3% para 7,6% antecipando uma das inovações
da reforma tributária: a desoneração parcial do encargo
previdenciário sobre a folha de pagamentos.
A desoneração será uma forma de atenuar o efeito
do aumento da alíquota para os prestadores de serviço que
são grandes empregadores, como estabelecimentos de ensino, saúde,
informática, transporte coletivo e telemarketing. Estes setores
não lucram nada com o fim da cumulatividade e já pagam de
Cofins um percentual sobre o seu faturamento muito próximo da alíquota
de 3%. Na reforma tributária, a transferência do encargo
da folha para o faturamento já era prevista, mas dependeria de
lei complementar para se tornar efetiva.
A nova fórmula, entretanto, pode causar perdas ainda maiores para
determinados prestadores de serviço. O relator da medida provisória,
deputado Jamil Murad (PCdoB-SP), trabalha com um mecanismo em que o encargo
incidirá em partes iguais sobre o faturamento e a folha. O estudo
de Murad demonstra que os grandes empregadores serão beneficiados
em detrimento dos que conseguem alto faturamento com baixo número
de empregados.
O parlamentar montou duas situações hipotéticas:
a de uma empresa que fatura R$ 100 mil e gasta a metade com os funcionários
e de outra, com o mesmo faturamento e apenas R$ 10 mil de folha. Atualmente,
a primeira recolhe R$ 11 mil de Previdência por mês e a segunda,
R$ 2,2 mil. Com o encargo dividido entre folha e pagamento, a primeira
empresa reduziria seu gasto para R$ 8,8 mil e a segunda teria o encargo
dobrado, para R$ 4,4 mil. Para a Previdência Social, a conta final
é neutra: na soma das empresas em ambas as situações,
receberá R$ 13,2 mil.
Exatamente por não se conhecer ainda os efeitos desta nova sistemática
em todo o setor de serviços, Murad pretende colocar em seu parecer
apenas o princípio de repartição do encargo previdenciário
entre folha e faturamento. A fórmula exata de divisão seria
determinada em outra medida provisória a ser editada pelo governo,
dentro de 90 dias. A decisão de atenuar o efeito do aumento da
alíquota do Cofins com a mudança previdenciária foi
tomada na noite de anteontem, em reunião dos líderes partidários
no Congresso com o ministro da Casa Civil, José Dirceu, e o ministro
da Fazenda, Antonio Palocci.
Outras fórmulas para se resolver o problema do setor de serviços
foram tentadas. Segundo Murad, os deputados e senadores apresentaram 55
emendas para reduzir a alíquota de 7,6%, um ponto inegociável
para o governo. Descartada esta hipótese, estudaram incluir os
grandes empregadores do setor de serviços entre as exceções
à nova Cofins, que já beneficiam, por exemplo, as empresas
de comunicação. "O problema é que isto implicaria
uma alíquota ainda maior para as empresas restantes". O fim
da cumulatividade era uma velha reivindicação do setor produtivo.
Pagando 3% a cada etapa da cadeia produtiva, havia setores que chegavam
a arcar com 15% do faturamento como pagamento da contribuição.
A alíquota de 7,6% não é neutra para o governo:
a União terá um ganho de arrecadação, sobretudo
sobre os importadores, afirmou Murad.
Emendas atrasam 2º
turno da Previdência
De Brasília
A apresentação de emendas de redação e a reunião
do Diretório Nacional do PT irão atrasar a tramitação
da reforma da Previdência no Senado por alguns dias. As propostas
de mudanças de redação devem impedir a votação
hoje da emenda principal da reforma em segundo turno no plenário
da Casa. Em vez da votação em plenário, as emendas
irão ser examinadas pela Comissão de Constituição
e Justiça. A aprovação em segundo turno deverá
ocorrer amanhã.
A emenda paralela deveria ser votada em primeiro turno pelo plenário
neste fim de semana, mas esta hipótese tornou-se remota em razão
da reunião do diretório petista. Como cinco dos 14 senadores
da sigla são membros da instituição partidária,
inclusive o líder do partido no Senado, Tião Viana (AC),
que é o relator da matéria, e o líder do governo
no Senado, Aloizio Mercadante (SP), o partido ficaria desfalcado na discussão
do texto.
Segunda-feira é a data mais provável para a votação
da emenda paralela em primeiro turno. O segundo turno deverá ocorrer
até o dia 23, um dia que o próprio relator admitiu que será
difícil obter o quórum. "Tenho informações
que muitos senadores irão viajar", afirmou Tião Viana.
Já no fim de semana passado, o quórum no Senado começou
a escassear. Na sessão extraordinária de sábado,
apenas 22 senadores estiveram presentes.
Votada amanhã a emenda principal da Previdência, ela poderá
ser promulgada imediatamente, já que não recebeu modificações
no Senado. Os senadores aprovaram apenas uma supressão, eliminando
a possibilidade de reestatização do sistema de seguro de
acidentes de trabalho. A emenda paralela reúne as modificações
desejadas pelos senadores.
Nela, foi incluída uma regra de transição para o
aumento da idade mínima, paridade para os servidores que preencherem
requisitos mínimos e liberdade para cada governo estadual fixar
o subteto em seus Estados. (CF)

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