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Quinta-feira, 11 de dezembro de 2003
Valor
Reformas Acordo prevê
R$ 1,5 bilhão para o Fundo de Participação dos Municípios
em 2005 e 2006
Governo decide liberar recursos e viabiliza
votação da tributária
Maria Lúcia Delgado, De Brasília
Os líderes partidários selaram um amplo acordo político
ontem para concluir a votação da reforma tributária
até o fim do mês. O PFL havia concordado em votar a reforma
sem criar grandes dificuldades ao governo depois que a equipe econômica
avalizou a liberação de R$ 1,5 bilhão nominal em
2005 e 2006 ao Fundo de Participação dos Municípios
(FPM). Pelo texto acertado, em 2004, haverá um repasse de R$ 1
bilhão nominal ao FPM em novembro, que equivale ao aumento de um
ponto percentual no montante de 22,5% do Imposto sobre Produto Industrializado
(IPI) e do Imposto de Renda (IR). O PFL também conseguiu a retirada
do texto da cobrança do Imposto sobre Heranças.
Praticamente todas as divergências de mérito foram superadas
e o novo texto da reforma, redigido em conjunto por senadores do governo
e da oposição, deve ser aprovado hoje na Comissão
de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. A expectativa
é que no máximo até o fim de semana a votação
em primeiro turno esteja concluída. Na noite de ontem foi realizada
uma rápida sessão na CCJ, mas houve um pedido de vista coletivo
e a sessão vai retomada na manhã de hoje. Os senadores concluíram
que ainda era preciso finalizar a redação da reforma. Os
líderes participavam de outra reunião ontem à noite
para definir o calendário de votação.
"Sobre a receita total do FPM de 2004, os municípios poderão
receber até R$ 1,5 bilhão nominal extra", explicou
o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP). O governo
também concordou com a tramitação de uma nova proposta
de emenda constitucional para dirimir qualquer dúvida sobre a incidência
da Contribuição de Intervenção sobre o Domínio
Econômico (Cide). O texto original da reforma tributária,
no artigo 149, abre brechas para a cobrança da Cide sobre qualquer
produto importado, além de levantar dúvida sobre a criação
de uma nova contribuição social que incidiria sobre bens
e serviços importados.
"A nova proposta de emenda constitucional vai tirar a dúvida
sobre a incidência de um novo imposto sobre importações",
afirmou o líder do PFL, José Agripino Maia (RN). O pefelista
reconheceu os avanços na negociação com o governo
e afirmou que o acordo permitiu a redução da carga tributária
sobre o contribuinte. "O que conseguimos em matéria de supressão
de carga e proteção de partilha para os municípios
foi suficiente para um acordo", afirmou Agripino.
Outra promessa do governo é que a Proposta de Emenda Constitucional
23, de autoria do senador Efraim Morais (PFL-PB), vai tramitar em regime
de urgência no próximo ano. A proposta estabelece que a verba
para pagamento de precatórios judiciais tem que estar prevista
no orçamento das entidades de direito público, e o pagamento
estará limitado a até 2% da receita líqüida
corrente.
Em relação ao Fundo de Desenvolvimento Regional (FDR),
que terá uma verba de R$ 2,2 bilhões a partir do momento
em que for promovida a unificação das alíquotas do
ICMS, ficou decidido que os 25% de repasse aos municípios não
será mais feito por convênio, mas sim de forma automática,
via FPM.
Para não embolar as negociações para votar a reforma
tributária, o governo ainda deu garantias à oposição
de que começa a discutir um acordo sobre a Medida Provisória
135, que acaba com a cumulatividade da Cofins, a partir da próxima
semana. "Esse é um leão para a próxima semana",
afirmou o senador Agripino.
Apesar de ter sido fechado o acordo, o PFL vai apresentar alguns destaques
para mudar pontos específicos do texto. O senador José Jorge
(PFL-PE) decidiu apresentar destaques em protesto ao fato de o governo
decidir enviar ao Congresso o novo modelo do setor elétrico através
de medida provisória e não projeto de lei, quer dá
mais tempo ao debate parlamentar. Ex-ministro desta área, o pefelista
defendia o envio de um projeto de lei.
PFL contorna mais uma crise e desfaz
impasse
De Brasília
As lideranças do PFL tiveram que agir rapidamente ao longo da
semana para contornar mais uma crise no partido que ameaçava a
condução das negociações sobre o texto da
reforma tributária. O líder do PFL na Câmara, José
Carlos Aleluia (BA), havia convocado uma reunião da bancada ontem
para definir, em eleição, quem assumiria a liderança
em 2004. Como não havia consenso e o clima no partido ficou bastante
tenso, Aleluia concordou em realizar a eleição somente no
início do próximo ano, atendendo aos apelos do presidente
do PFL, Jorge Bornhausen, do líder do partido no Senado, José
Agripino Maia (RN), e do ex-vice-presidente da República senador
Marco Maciel (PE).
Os carlistas - aliados do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA)
- que resistem à recondução de Aleluia, protestaram
contra a escolha agora, e exigiram que a eleição fosse feita
só no próximo ano. Um grupo de parlamentares ameaçou
recolher assinaturas para destituir Aleluia da liderança caso a
eleição fosse antecipada. "Atendi a um apelo daqueles
que conspiraram a favor do entendimento e achei oportuno adiar. Ano que
vem está ali na esquina", alegou Aleluia. O baiano reconheceu
que antecipar a eleição "não seria a melhor
solução para o partido". Segundo ele, a reunião
de ontem foi convocada porque um grupo de deputados defendia a antecipação
da eleição e, caso houvesse convocação do
Congresso em janeiro, o partido não poderia ficar sem líder.
O PFL apenas adiou um problema que gerava interferências nas negociações
conduzidas entre oposição e governo no Senado para aprovar
a reforma tributária. Enquanto Bornhausen e Agripino adotavam um
discurso mais duro nas negociações com o governo, ACM, de
acordo com os próprios pefelistas, ameaçava agir de forma
independente caso a polêmica na Câmara não fosse contornada.
No ano que vem, no entanto, Aleluia disputará a liderança
com um aliado de ACM.
O neto de ACM, o deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (BA),
afirmou que não pretende disputar a liderança com Aleluia.
"Não há nenhuma hipótese de eu concorrer",
garantiu. De acordo com ele, se a eleição do líder
fosse antecipada, se deflagraria um processo de divisão no partido.
"A eleição poderia levar à disputa, e a disputa
levaria à divisão do partido", avaliou ACM Neto.
De acordo com parlamentares pefelistas que participaram das reuniões
de ontem, o clima no partido está muito tenso. O deputado Roberto
Brant (PFL-MG) ameaçou concorrer com Aleluia caso o líder
levasse adiante a tentativa de antecipar a eleição. Os aliados
de Aleluia garantem que ele teria votos suficientes para se eleger. Seus
críticos asseguram que o líder só adiou a eleição
porque não conseguiu os apoios suficientes. (MLD)
Tramitação
da MP da Cofins pára na Câmara
De Brasília
A possibilidade de a oposição ao governo no Senado obstruir
a votação da Medida Provisória 135, que acaba com
a cumulatividade da Cofins e aumenta a sua alíquota de 3% para
7,6%, fez com que os governistas freassem toda a tramitação
na Câmara. Foram suspensas as sessões deliberativas entre
os deputados e o relator da MP, o deputado Jamil Murad (PCdoB-SP), decidiu
não apresentar ontem o seu parecer, que está praticamente
pronto.
O Senado deve terminar de votar as reformas da Previdência e tributária
nas próximas duas semanas e poderia impedir as votações
dentro do cronograma desejado pelo governo para forçar negociações.
A estratégia foi comentada abertamente pelo presidente do PFL,
o senador Jorge Bornhausen (SC), ao encerrar uma audiência pública
promovida pela oposição com empresários contrários
à MP.
"Nós não temos maioria. A nosso favor temos o prazo
e a pressão. Em função das reformas constitucionais,
o governo não pode suportar um trancamento de pauta no Senado.
E a pressão tem que ser uma batalha de vocês", afirmou
o catarinense, dirigindo-se aos empresários. Na Câmara, a
MP 135 começa a trancar a pauta no dia 15, e a possibilidade de
que seja votada antes disso é praticamente nula.
O fim da cumulatividade acompanhado do aumento da alíquota prejudica
o setor de serviços e as indústrias com cadeia produtiva
curta, que pagavam uma alíquota real de Cofins muito próxima
de 3%. O governo oferece como compensação para estes setores
uma mudança na medida provisória que garante a curto prazo
a desoneração parcial da contribuição patronal
da Previdência sobre a folha de pagamento.
Houve discussão sobre a apresentação da fórmula
de desoneração já no parecer de Murad, mas prevaleceu
a tese de fazer a mudança em duas etapas. O texto sobre o assunto
que o deputado comunista deverá apresentar será o seguinte:
"No prazo de 90 dias, a partir da publicação da lei,
o Poder Executivo encaminhará projeto de lei prevendo substituição
parcial da contribuição previdenciária, observado
o princípio da não-cumulatividade, da folha de pagamento
de salários para a receita bruta".
A desoneração parcial da folha foi mal recebida entre os
empresários que participaram do ato no Senado. "O governo
está colocando uma esperteza para engambelar o setor de serviços.
A alíquota sobre o faturamento que o Ministério da Fazenda
está estimando vai fazer a arrecadação do INSS sobre
o setor aumentar mais", afirmou o consultor do grupo de pressão
Ação Empresarial, Roberto Ferreira.
A contribuição patronal da Previdência sobre a folha
de pagamentos penaliza os prestadores de serviço que fazem uso
intensivo de mão de obra. A divisão desta contribuição
entre folha e receita bruta vai aumentar a carga sobre os empresários
que fazem uso intensivo de capital. A proposta divide o empresariado.
Por isso, os grupos de pressão que atuam no Congresso preferiram
centrar a sua ação em relação à MP
135 em três linhas de emendas: aumentar os setores excluídos
da nova alíquota da Cofins, ampliar as categorias que estão
no Simples ou baixar a alíquota. Todas propostas descartadas pelo
governo. (CF)
Senado vota hoje 2º
turno da Previdência
César Felício, De Brasília
O impasse entre governo e a oposição na negociação
da reforma tributária adiou ontem, por um dia, a votação
do segundo turno da emenda principal da reforma da Previdência no
plenário do Senado. A votação ficou marcada para
hoje pela manhã, a pedido do líder do PFL na Casa, José
Agripino Maia (RN).
Agripino justificou o adiamento por uma questão regimental: a
Comissão de Constituição e Justiça do Senado
acatou ontem quatro emendas de redação e pela regra da Casa
as mudanças teriam que ser publicadas no Diário do Senado
para entrarem na ordem do dia de votação. Mas a votação
da Previdência no mesmo dia do primeiro turno da reforma tributária
aumenta o poder de pressão sobre a base governista.
Para o governo, o adiamento foi conveniente. Estavam ausentes ontem quatro
senadores (os pemedebistas Ramez Tebet, Ney Suassuna e José Maranhão
), o que baixaria perigosamente o quórum de senadores favoráveis
à proposta governista. No primeiro turno, a emenda da Previdência
recebeu 55 votos, seis a mais que o quórum mínimo e incluindo
o voto dos três parlamentares ausentes ontem.
Aprovada a emenda principal da Previdência na manhã de hoje,
a próxima etapa será a votação no plenário
da emenda paralela da Previdência na segunda-feira, 15. O segundo
turno da emenda paralela deverá acontecer no dia 22 ou na terça-feira,
23 de dezembro.
O restante da tramitação ficará nas mãos
do presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha (PT-SP).
Caso ele concorde em fazer uma convocação extraordinária
da Câmara, a emenda paralela poderá ser aprovada durante
o mês de janeiro e promulgada apenas algumas semanas depois da emenda
principal. O presidente da Câmara, contudo, resiste em fazer a convocação.
A possibilidade de qualquer reabertura de negociação sobre
o conteúdo das duas emendas da reforma da Previdência é
zero. "A oposição sabe que já esticou a corda
ao máximo", afirmou o relator de ambas as propostas, o líder
do PT no Senado, Tião Viana (AC). Mas a oposição
continua cética sobre a aprovação da emenda paralela,
com concessões ao funcionalismo, entre os deputados. "Com
a emenda paralela, o caixa do governo diminuirá, o FMI ficará
zangado e os banqueiros internacionais muito tristes", ironizou o
senador Efraim Moraes (PFL-PB).
Sem votações de impacto ontem, o Senado aprovou indicações
presidenciais. O diplomata Roberto Abdenur recebeu 52 votos para ocupar
a embaixada do Brasil nos Estados Unidos e o secretário de Telecomunicações
do Ministério das Comunicações, Pedro Jaime Ziller,
foi aprovado para ocupar uma vaga no Conselho da Anatel, por 57 votos.

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