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Segunda-feira, 15 de dezembro de 2003
Valor
Promulgação da reforma
não garante mudança no modelo tributário
Maria Lúcia Delgado, De Brasília
A meta do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva era encerrar
neste ano o debate das reformas tributária e da Previdência,
mas a promulgação da parte essencial das duas propostas,
que deve ocorrer no dia 19, não garante uma mudança de concepção
do modelo tributário. "A reforma tributária é
um processo. A aprovação (no Senado) só deflagra
esse processo", definiu o líder do governo no Senado, Aloizio
Mercadante (PT-SP). A maior parte das mudanças estruturais propostas
pelo Senado - que poderão levar à simplificação
dos tributos, fim da guerra fiscal e redução da carga -
dependem de novas legislações.
A previsão é que a votação em segundo turno
no Senado seja concluída dia 18. Na votação dos destaques
em primeiro turno, os senadores derrubaram em plenário a emenda
do relator, Romero Jucá (PMDB-RR), que propunha a desvinculação
de 10% das receitas dos Estados e municípios (DRE) na área
social.
Após a conclusão da votação em segundo turno,
de imediato o Congresso retomará os trabalhos em 2004 discutindo
pelo menos duas propostas de emenda constitucional (sobre a redução
gradual da CPMF e incidência da Cide e da Cofins) e mais uma medida
provisória que tratará da desoneração da folha
de pagamento das empresas, substituindo parte do recolhimento da contribuição
previdenciária patronal que é feita sobre os salários
para o faturamento, de forma não cumulativa.
Além disso, após a promulgação integral da
reforma, cuja data dependerá da vontade política dos deputados
e demandará um novo acordo político, o Congresso terá
que analisar pelo menos seis projetos de lei complementar. A expectativa
dos governistas é que ao menos dois projetos possam tramitar a
partir do segundo semestre de 2004. Pelo texto da reforma tributária
aprovado no Senado, dois projetos precisariam ser votados no Congresso
até 31 de dezembro de 2004: o que especifica as regras para unificação
das cinco novas alíquotas do ICMS e também a desoneração
da cesta básica, insumos agrícolas e baixo consumo de energia;
e a que apresenta regras de uma nova política industrial para o
país, de forma a compensar o fim da concessão de incentivos
fiscais.
Se a conclusão da reforma será demorada, sua eficácia
também será de longo prazo, na avaliação do
ministro da Fazenda, Antonio Palocci. "A política tributária
não é do governo, nem da oposição. É
uma política para 40, 50 anos, e para o Brasil", enfatizou
o ministro, após cumprimentar os senadores, na última sexta-feira,
pela ampla negociação e pela votação da reforma
em primeiro turno.
Palocci recorreu a seu típico bom humor e otimismo para comentar
a necessidade de um amplo esforço político do governo na
Câmara para concluir, de fato, a votação da reforma:
"Temos que considerar igual aos mineiros: as coisas sempre acabam
bem. Quando não estão bem, é porque não acabaram".
O ministro disse que a equipe econômica ainda fará o levantamento
do impacto financeiro da reforma. De acordo com técnicos governistas
envolvidos nas negociações, o montante mais expressivo de
recursos que a União provavelmente vai liberar em 2004, que é
de R$ 1 bilhão para o Fundo de Participação dos Municípios
e R$ 2,2 bilhões do Fundo de Desenvolvimento Regional, virá
do aumento de arrecadação do IPI, já que não
haverá mais o mecanismo de compensação pela cobrança
cumulativa da Cofins.
Para Palocci, a proposta votada no Senado "equilibra os orçamentos
dos entes federativos, não aumenta a carga e cria um conjunto de
benefícios significativos". O ministro reconhece, no entanto,
que o processo de redução da carga só ocorrerá
a longo prazo. "O Brasil deve buscar a longo prazo a redução
da carga tributária, e isso deve ser feito com responsabilidade,
ou seja, olhando os compromissos e o equilíbrio econômico
do país", afirmou. Esse mecanismo de redução
gradual da carga, enfatizou Palocci, terá que ser discutido nessa
nova proposta de emenda constitucional, que poderá ser apresentada
hoje pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), mas só deve ser votada
no próximo ano.
O ministro reconheceu ainda que a unificação das alíquotas
do ICMS - discussão que terá que ser retomada na Câmara
- não é de interesse da União. "A questão
do ICMS, embora não seja interesse nosso, tem todo interesse para
a economia", justificou.
Outra polêmica que só será discutida no fim do mandato
de Lula é a criação do IVA (Imposto sobre Valor Agregado).
Também nesse caso terá que ser votada uma nova proposta
de emenda constitucional e, como o tema gera muitas controvérsias,
não há nenhuma garantia política de que os parlamentares
votarão essa PEC e introduzirão o novo imposto.

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