02/12/2004
FOLHA DE SÃO PAULO
TRIBUTAÇÃO
Objetivo das associações comerciais de SP, RJ e MG é que as pessoas saibam qual é a carga fiscal em cada mercadoria
Campanha mostra o peso dos impostos nos produtos
PEDRO SOARES
DA SUCURSAL DO RIO
Em campanha para conscientizar o contribuinte da elevada carga tributária,
a ACSP (Associação Comercial de São Paulo) lançou
ontem a "Calculadora do Imposto", ferramenta pela qual o cidadão
pode calcular quanto os tributos consomem de sua renda.
Em parceria com as associações comerciais do Rio e de Minas Gerais,
a ACSP quer mostrar para o contribuinte que boa parte do preço final
dos produtos são impostos ou contribuições.
"A população não sabe, não tem noção
de quanto paga [de imposto]", disse Guilherme Afif Domingos, presidente
da ACSP.
Em produtos como o açúcar, os tributos representam 40% do preço
final. No total, os tributos sobre os rendimentos e os produtos "comem",
por exemplo, 51,4% do salário de quem ganha R$ 5.000.
Peso tributário
Além da calculadora, Afif Domingos disse que o varejo também irá
expor o peso dos tributos em cartazes nas lojas, numa campanha que pode culminar
ainda com a coleta de assinaturas para a proposta de emenda popular limitando
a carga tributária.
Essa idéia foi lançada ontem pelo advogado tributarista Ives Gandra
da Silva Martins, professor emérito das universidades Mackenzie e UniFMU.
Segundo ele, só uma proposta popular levaria deputados e senadores a
examinar a questão e possivelmente decidir a favor dela.
"Tal medida é a única forma de barrar o aumento da carga
tributária", disse Gandra Martins, que participou do seminário
"Reforma Tributária: A necessidade de um Novo Sistema na Visão
do Contribuinte", na Associação Comercial do Rio.
Segundo o economista Paulo Rabello de Castro, sócio da RC Consultores,
a carga tributária passou de cerca de 27% a 28% do PIB em 1994 para 37%
a 38% em 2004, subindo um ponto por ano. O IBGE informou, porém, que
ficou em 34% do PIB em 2003.
Carga é maior
Para Gandra Martins, a carga tributária é maior do que a informada
anteontem pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística),
pois o cálculo não considera as multas aplicadas pelo fisco nem
alguns tipos de contribuição, como o FGTS (Fundo de Garantia do
Tempo de Serviço).
Para Rabello de Castro, tal nível de tributação permite
ao país crescer a uma taxa média anual de apenas 2,5%. Na sua
opinião, o aumento da carga foi necessário para suportar a elevação
dos gastos públicos, sem uma contrapartida da melhoria dos serviços
prestados pelo Estado.
Gandra Martins também defendeu a redução dos gastos públicos,
dizendo que a atual estrutura só faz inchar o governo: "É
passar de quem produz para o detentor de poder [governo, que não produz],
para a multiplicação de órgãos, para a criação
de ministérios para derrotados [em eleições, numa referência
ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva]."
Na visão do advogado, embora o governo "calibre" os juros "excessivamente",
o maior problema é "a máquina inchada". "Não
há esforço para reduzir a máquina inchada, não há
esforço para profissionalizar a máquina do Estado. São
os amigos do rei. Temos muitos amigos -75 mil contratados sem concurso- em todos
os governos."