05/12/2004
FOLHA DE SÃO PAULO
TRIBUTAÇÃO
Equipe econômica quer convencer Lula a dar reajuste maior a salário em troca de correção menor da tabela do imposto
Governo pode priorizar mínimo em vez de tabela
do IR
VALDO CRUZ
DIRETOR-EXECUTIVO DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
KENNEDY ALENCAR
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Nos debates internos do governo, a equipe econômica luta para convencer
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a conceder um reajuste maior para
o salário mínimo em troca de uma correção menor
na tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física.
Dois argumentos serão usados na tentativa de persuadir Lula: um social
e outro fiscal. No caso do primeiro, a tese é que aumentar o salário
mínimo tem um alcance social muito maior do que reajustar a tabela do
IR.
O governo optaria por uma medida que beneficiará a camada mais pobre
da população, aquela que ganha salário mínimo, hoje
em R$ 260,00. Já o reajuste da tabela do IR atinge a faixa da população
que ganha mais de R$ 1.058,00 mensais e tem carteira de trabalho assinada.
O argumento fiscal é que subir o salário mínimo para algo
próximo a R$ 300 e reajustar a tabela do Imposto de Renda pela inflação
acumulada nos dois anos de governo Lula, algo em torno de 17%, tem um peso elevado
sobre os gastos públicos.
Somente para bancar um mínimo de R$ 300, um desejo do presidente Lula
cuja viabilidade é analisada pelo ministro Antonio Palocci Filho (Fazenda),
custaria no próximo ano aos cofres federais R$ 2,1 bilhões a mais.
Já a correção da tabela do Imposto de Renda em 17% significaria
abrir mão de uma arrecadação de cerca de R$ 2,7 bilhões
em 2005. Somadas, as duas medidas gerariam uma sangria nos cofres públicos
de R$ 4,8 bilhões.
Temor eleitoral
Se dependesse só da Receita Federal, a tabela do IR não sofreria
mudança. Ficaria como está. Politicamente, porém, o Ministério
da Fazenda avalia que algo terá de ser feito para atender ao presidente
e a pressões do PT num momento em que Palocci se fortalece.
Lula e o PT gostariam de fazer um agrado à classe média por conta
da avaliação de que parte dela está desiludida com o governo.
Apesar de discordar da tese de que a classe média derrotou o PT em cidades
importantes nas últimas eleições, Lula teme que setores
dessa camada que sempre tiveram simpatia pelo petismo possam optar pela oposição
na eleição presidencial de 2006, quando provavelmente tentará
conquistar mais quatro anos de mandato.
Reajuste progressivo
Uma medida a equipe econômica tentará evitar: um reajuste linear
da tabela, exatamente o que é defendido pela CUT (Central Única
dos Trabalhadores) e por muitos petistas.
A avaliação é que o governo estaria abrindo mão
de recursos que poderiam ser usados em programas sociais para atender a todos
os contribuintes de Imposto de Renda do país, desde os que ganham menos
até os que ganham mais. Seria uma medida que não traria o que
a equipe econômica classifica de justiça social.
Para atender em parte às reivindicações de petistas e CUT,
existem vários estudos na Receita. Eles serão analisados nos próximos
dias, já que a decisão tem de ser tomada neste ano para valer
no próximo -pelo princípio da anualidade, mudança tributária
não pode ser decidida no mesmo ano em que será implementada.
Uma opção é modificar a sistemática de deduções
no cálculo do Imposto de Renda devido pelas pessoas físicas, como
os de educação, saúde e dependentes. Hoje, segundo estudos
do próprio governo, quem ganha mais acaba tendo condições
de ter mais descontos com essas deduções do que os que ganham
menos.
Uma saída, então, para compensar um reajuste na tabela seria exatamente
cortar parte do que é deduzido pelos contribuintes, principalmente aqueles
atingidos pela alíquota de 27,5% -faixa salarial acima de R$ 2.115,00.
Outra opção seria criar novas alíquotas, como a de 35%.
A Receita Federal avalia que, para compensar um reajuste pela inflação
da tabela, seria preciso tributar em 35% a faixa salarial acima de R$ 3.000,00.
O que seria inviável politicamente.
O governo acredita que nem mesmo aplicar uma alíquota de 35% para quem
ganha mais de R$ 12 mil passa no Congresso Nacional, já que a medida
atinge os parlamentares. Uma saída seria tributar com essa alíquota
quem ganha, por exemplo, acima de R$ 15 mil. Só que o efeito em termos
de arrecadação seria muito pequeno.
Em favor de um mínimo maior e contra um reajuste linear do IR, por sinal,
foi debatido no Palácio do Planalto um documento intitulado "Quem
é relativamente rico?", do economista Rodolfo Hoffmann, levado pelo
assessor especial José Graziano.
Diz o texto: "Se aumentarmos um pouco a renda de uma pessoa com renda muito
baixa, isso fará com que se reduza o valor de uma boa medida de desigualdade.
Por outro lado, aumentar a renda de uma pessoa com renda muito alta fará
com que cresça o valor dessa medida de desigualdade".