10/12/2004
FOLHA DE SÃO PAULO
IMPOSTOS
Com novos números do IBGE, arrecadação de tributos representou 34,88% do PIB em 2003, contra 35,53% em 2002
Carga tributária cai no primeiro ano de Lula
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Ao contrário do que chegou a ser anunciado no começo de junho,
a carga tributária registrou queda em 2003, primeiro ano do governo de
Luiz Inácio Lula da Silva.
Com os novos números que foram divulgados na semana passada pelo IBGE
(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), foi possível
concluir que o total de tributos cobrados no ano passado representou 34,88%
do PIB (Produto Interno Bruto), ou 0,65 ponto percentual menos do que os 35,53%
registrados em 2002.
Antes, acreditava-se que a soma dos tributos arrecadados tanto pelo governo
federal quanto por Estados e municípios equivalia a 35,68% do total de
riquezas produzidas pelo país em 2003. Na última semana, porém,
o IBGE tornou pública uma revisão nos valores do PIB do ano passado.
O valor do PIB passou de R$ 1,515 trilhão para R$ 1,556 trilhão, o que reduziu o indicador da carga tributária. Dessa forma, embora não tenha havido praticamente mudança no total de tributos efetivamente arrecadados, o peso que essa carga teve na economia foi um pouco menor do que se pensava -menor inclusive do que em 2002.
Compromisso de redução
O ministro Antonio Palocci Filho (Fazenda) aproveitou a divulgação
dos novos números para dizer que o governo tem por objetivo reduzir o
peso dos tributos na economia. "O nosso compromisso de reduzir, na medida
do possível, a carga tributária, os números provam que
está sendo cumprido", disse o ministro.
Palocci não quis, no entanto, fazer projeções sobre os
resultados a serem alcançados neste ano. "A [carga tributária]
de 2004 nós só vamos saber quando saírem os números
do PIB de 2004."
Esses números deverão ser divulgados apenas em junho de 2005.
Pelos aumentos na arrecadação que vêm observados até
agora, é provável que a carga tributária volte a crescer
neste ano.
Há um mês, ao participar de reunião do Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social, Palocci havia dito que era de se esperar uma carga
maior neste ano, devido ao aumento da arrecadação de tributos
que se observava até o momento.
Desde 1996 não se observava queda na carga tributária em relação
ao PIB, de acordo com a Receita Federal.
Entre 2002 e 2003, houve apenas aumento no peso dos tributos cobrados pelos
municípios. Essa carga passou de 1,50% do PIB para 1,53%. No caso do
governo federal e no caso dos Estados, ao contrário, houve redução.
Nível internacional
Apesar da queda de 2003, a carga tributária brasileira continua no mesmo
nível de países desenvolvidos. A coordenadora de Política
Tributária da Receita Federal, Andrea Lemgruber Viol, disse ontem que,
nos países que fazem parte da OCDE (Organização para Cooperação
e Desenvolvimento Econômico), o peso dos tributos equivale, em média,
a 36,9% do PIB.
"Estamos na média dos países da OCDE e da Europa Oriental",
afirmou. Segundo ela, a carga tributária média observada entre
os membros da União Européia chega a 40,5%. Todas as estatísticas
internacionais apresentadas pela Receita se referem aos resultados de 2002.
No México, ainda de acordo com a Receita, os tributos arrecadados pelo
governo representam 18% do PIB. Viol disse, porém, que o país
só possui uma carga tributária reduzida por causa dos recursos
que obtém com a extração de petróleo.
"Estamos num nível confortável de arrecadação.
Isso nos dá margem para fazer uma política tributária de
melhor qualidade", afirmou Viol, referindo-se a medidas de redução
de tributos que podem ser anunciadas pelo governo devido ao aumento de arrecadação
registrado neste ano.
"Existe um consenso na sociedade e no governo de que a carga tributária
chegou ao limite."
Nosso compromisso de reduzir a carga tributária, os números provam que está sendo cumprido [...] A [carga] de 2004 nós só vamos saber quando saírem os números do PIB de 2004
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ANTONIO PALOCCI FILHO
ministro da Fazenda
Para o IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário), a queda
da carga tributária em 2003 foi menor do que a constatada pela Receita
Federal.
Para a Receita, a queda foi de 0,65 ponto percentual (de 35,53% em 2002 para
34,88% do PIB em 2003); para o IBPT, de 0,30 ponto (de 35,84% para 35,54%).
A diferença está no total de tributos arrecadados. Para a Receita,
foram R$ 542,75 bilhões; para o IBPT, R$ 553,06 bilhões, ou seja,
R$ 10,31 bilhões a mais.
O instituto computou R$ 7,23 bilhões a mais apenas com multas, juros
e correção monetária pagos pelos contribuintes durante
o ano passado. A Receita Federal não inclui esses valores em seus cálculos.
Além disso, o IBPT computou mais R$ 2,01 bilhões nas receitas
dos Estados e mais R$ 1,07 bilhão na dos municípios.
Para o advogado Gilberto Luiz do Amaral, presidente do IBPT, apesar da queda
da carga tributária em relação ao PIB, a sociedade pagou
mais impostos no ano passado. "Houve aumento de 3,8% em termos reais",
diz Amaral.
Os 3,8% tomam por base os dados da Receita Federal. Segundo Amaral, a arrecadação
de 2003, de R$ 542,75 bilhões, foi 13,49% superior aos R$ 478,25 bilhões
de 2002. Deflacionada pelo IPCA de 9,3% de 2003, a arrecadação
teve aumento real de 3,8%. Para a Receita, que utiliza o deflator implícito
do PIB de 15%, houve queda real de 1,31% na arrecadação tributária
de 2003.
Feitos os cálculos com base nos números do IBPT (R$ 553,06 bilhões
no ano passado e R$ 478,25 bilhões em 2002), o aumento nominal da arrecadação
é de 15,64%. Usando o IPCA como deflator, o aumento real é de
5,8%.
Inadimplência ajudou
Amaral afirma também que a inadimplência dos contribuintes
(atraso no pagamento de tributos) em 2003 provocou a queda da carga fiscal em
relação ao PIB.
Se houvesse uma menor inadimplência -ele estima, ainda com base em números
preliminares, que o calote foi de 26% em termos nominais, ou cerca de 15% em
termos reais- a carga fiscal teria sido maior em 2003.
A base para chegar a esses números é o passivo tributário
(valor que todos os contribuintes devem aos governos federal, estaduais e municipais).
Segundo Amaral, esse valor total (importância acumulada, ou seja, o estoque
em 31 de dezembro de cada ano) era de R$ 1,430 trilhão ao final de 2002,
mas cresceu para R$ 1,803 trilhão ao final de 2003, ou mais 26%. Esses
números, segundo o advogado, ainda não são definitivos.
Entenda o cálculo
Revisão do PIB (Produto Interno Bruto) de 2003 para cima e arrecadação
tributária praticamente igual ao valor divulgado em 9 de junho deste
ano. Foram esses dois fatores que provocaram a queda da carga tributária
em relação ao PIB no ano passado.
Trata-se de uma simples operação de divisão. O dividendo
(total de tributos arrecadados no país em 2003) cresceu apenas R$ 2,25
bilhões e o divisor (o PIB), R$ 41,26 bilhões. Resultado: o quociente
ficou menor.
Em junho, a Receita divulgou que o PIB do ano passado havia somado R$ 1,515
trilhão (queda de 0,2%), para uma arrecadação tributária
total de R$ 540,50 bilhões. Resultado: carga tributária de 35,68%
do PIB no ano.
No final de novembro, o IBGE retificou o PIB para um crescimento de 0,5%. Ontem,
a Receita informou que o PIB foi de R$ 1,556 trilhão e a arrecadação
tributária, de R$ 542,75 bilhões. Feita a nova conta, chega-se
aos 34,88% da carga tributária em relação ao PIB no ano
passado.