16/12/2004
FOLHA DE SÃO PAULO
HORA DO AJUSTE
Alta real de 9,3% no salário (que vai a R$ 300) e alívio no imposto obrigarão governo a reduzir despesas
Lula eleva mínimo, reajusta IR e corta gasto
JULIANNA SOFIA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O governo anunciou ontem que o salário mínimo passará
de R$ 260 para R$ 300 em maio do próximo ano. O reajuste representa um
aumento de 9,3% acima da inflação, segundo projeções
do Ministério do Trabalho. Em maio deste ano, o piso salarial foi reajustado
em 1,2% em termos reais.
O reajuste do mínimo foi divulgado no mesmo dia do anúncio da
correção do Imposto de Renda, após negociações
com as centrais sindicais, que se disseram frustradas com o resultado final.
As medidas gerarão perda de receita e aumento de despesas do governo
que devem ser compensados com novos cortes de gastos.
No ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu um aumento
real de 1,85%. Durante a campanha, o candidato petista prometeu dobrar o valor
do mínimo em termos reais. Contando o reajuste proposto para 2005, os
aumentos acima da inflação somam apenas 12,66%.
Nos cofres do governo federal, o aumento anunciado gerará uma elevação
de gastos de R$ 8 bilhões em 2005. A maior parte recairá sobre
as contas da Previdência Social, que fechará este ano com déficit
acima de R$ 30 bilhões.
O Orçamento enviado ao Congresso já previa um gasto de R$ 5,530
bilhões com o novo mínimo, caso ele fosse elevado para cerca de
R$ 283,00, o que era previsto inicialmente. Agora, com R$ 300, o governo terá
um gasto extra de R$ 2,470 bilhões.
Além das aposentadorias, pensões e outros benefícios previdenciários,
o mínimo serve como base para o seguro-desemprego e outros benefícios
assistenciais.
Para acomodar o impacto no Orçamento de 2005 do aumento do mínimo
e da correção da tabela do Imposto de Renda, o governo lançará
mão de um aumento de arrecadação acima do esperado calculado
pela Comissão Mista de Orçamento do Congresso. Também será
preciso reduzir a previsão de gastos para 2005.
De acordo com o presidente da comissão, Paulo Bernardo (PT-PR), haverá
redução de 5% nos gastos com custeio da máquina pública,
além de um corte de 15% nos investimentos acima de R$ 3 milhões.
O senador Romero Jucá (PMDB-RO), relator da comissão, estima que
poderão ser necessários novos cortes.
A decisão sobre o novo mínimo foi anunciada pelo presidente em
reunião com 40 líderes sindicais e seis ministros. Nos próximos
dias, o governo enviará um projeto de lei ao Congresso Nacional propondo
o reajuste de R$ 40.
O projeto também prevê a criação de uma comissão
para discutir uma política gradual de recuperação do valor
do mínimo nos próximos anos. O grupo será formado por representantes
do governo, do empresariado, dos trabalhadores e dos aposentados.
Segundo o ministro Ricardo Berzoini (Trabalho), nenhuma categoria vem obtendo
reajustes de 9% acima da inflação. "[O aumento] representa
um passo importante com responsabilidade orçamentária, sem nenhum
tipo de mágica orçamentária", disse.
O governo vinha estudando outras possibilidades além de reajustar o mínimo
em R$ 300. Uma proposta era aumentá-lo para R$ 290 em janeiro.
Nas últimas semanas, enquanto as centrais sindicais pressionavam o governo
para elevar o mínimo para R$ 320, vários prefeitos estiveram em
Brasília para alertar o governo sobre os riscos de um aumento muito elevado.
Muitos municípios, de acordo com relato dos prefeitos, poderiam quebrar.
O deputado Bernardo disse que o governo fechou um acordo na votação
da reforma tributária que permitirá aumento na receita das prefeituras.
Pelo acordo, a parcela dos municípios no bolo das receitas federais irá
aumentar em um ponto percentual. "Isso dará um fôlego extra
para as prefeituras".
HORA DO AJUSTE
Aumento do mínimo pode reduzir pobreza e gerar desemprego
Alta tem impacto negativo e positivo
DA REPORTAGEM LOCAL
O aumento do salário mínimo tem impactos positivos e negativos.
Ele ajuda a reduzir a pobreza e, dependendo do caso, a desigualdade de renda.
Por outro lado, aumenta a probabilidade de uma parte dos trabalhadores com carteira
de trabalho assinada migrarem para o setor informal. E há o impacto fiscal,
com aumento dos gastos da Previdência Social.
Os trabalhadores do setor informal são os mais beneficiados pelos aumentos
do mínimo. Quase metade dos trabalhadores informais ganha até
um salário mínimo. Uma outra parte importante ganha múltiplos
do mínimo, ou seja, tem algum tipo de contrato, ainda que informal, indexando
os salários ao valor do mínimo -esse é o caso, muitas vezes,
das empregadas domésticas.
No caso de quem tem carteira de trabalho assinada, os ganhos de renda não
são tão significativos. Na verdade, apenas 12% dos cerca de 23,7
milhões de trabalhadores que tinham carteira assinada em 2003 ganhavam
até um salário mínimo. Uma parte dos trabalhadores formais
que ganha pouco mais de um salário pode ser beneficiada. Outra parte,
no entanto, pode acabar perdendo o emprego ou tendo que abrir mão da
carteira assinada caso a empresa em que trabalhe avalie que o novo salário
é alto demais. O problema é que não há estimativas
seguras sobre qual desses dois efeitos predomina.
Francisco Ramires, professor do Ibmec, lembra que poucas empresas pagam salário
mínimo no setor formal. A exceção é a construção
civil, "onde o aumento tem um impacto grande". "[As altas do
mínimo] tem potencial de elevar a base da pirâmide de salários,
mas como há impacto nos custos dos empregadores, também há
impactos negativos".
"Existe um impacto importante do mínimo no setor informal",
diz José Pastore, economista da USP. Mas ele lembra que os aumentos do
mínimo também pioram a qualidade do emprego, justamente por conta
do aumento da informalidade.
Quem não perde o emprego, claro, acaba ganhando renda adicional, tanto
no setor formal quanto informal e, em ano de crescimento econômico, salário
mínimo maior pode significar redução da desigualdade no
mercado de trabalho e na distribuição de renda. O economista Marcelo
Neri, da FGV, por exemplo, estima que a cada 10% de aumento real do mínimo,
ou seja, já descontados os efeitos da inflação do período,
a proporção de pobres na população brasileira cai
aproximadamente 1,2%.
Nem toda a queda da pobreza, no entanto, é explicada pelo aumento na
renda de quem está trabalhando. Na verdade, a maior parte dela ocorre
por conta dos gastos da Previdência, que paga benefícios equivalentes
a um salário mínimo a cerca de 14 milhões de aposentados.
Todos são beneficiados pelo aumento do salário mínimo.
O outro lado da moeda é o aumento dos gastos da Previdência. Na
prática, aumentos maiores do mínimo são sempre barrados
por conta do impacto negativo que eles exercem sobre as contas públicas.
Uma das propostas analisadas pelo governo é desvincular as aposentadorias
do salário mínimo. "O que é uma discussão desumana.
Livra as contas públicas, é verdade. Mas e o aposentado?",
questiona Pastore.
O economista avalia que a proposta relevante para enfrentar o problema é
a discussão da reforma da legislação trabalhista que, na
avaliação dele, é a origem da grande informalidade no Brasil.
José Mauricio Soares, economista do Dieese, concorda. Ele avalia que
é preciso realmente criar formas de aumentar a contribuição
à Previdência, reduzindo a informalidade. Conter o mínimo
para não ter impactos nas contas públicas, diz ele, pode funcionar
por enquanto. "Mas no limite, todos os trabalhadores, formais ou informais,
vão acabar "caindo" na Previdência. E a situação
será insustentável", diz.
Governo aceita correção de 10% para pessoas físicas a partir de janeiro; centrais sindicais queriam 17%
Reajuste para o IR fica abaixo do esperado
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A tabela do Imposto de Renda das pessoas físicas será corrigida
em 10% a partir de janeiro. A decisão, anunciada ontem pelo governo para
atender parcialmente as reivindicações das centrais sindicais,
pode significar, na prática, uma correção menor. Motivo:
até a noite de ontem, o governo não havia deixado claro se corrigiria
apenas as faixas da tabela ou toda ela (inclusive as deduções).
Nos próximos dias, o governo deverá baixar uma medida provisória
com a mudança. Reservadamente, membros da equipe econômica dizem
que só serão corrigidas as faixas sobre as quais incidem os cálculos
para o pagamento do IR na fonte, ficando de fora as deduções.
Ou seja, um jeito de diminuir o benefício que seria dado à classe
média, já que sem as deduções a correção
na prática ficaria em torno de 7%.
Já os sindicalistas saíram da reunião com a expectativa
de que seria feita uma correção mais ampla da tabela. "Haverá
uma correção de 10% no conjunto da tabela", disse Luiz Marinho,
presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), ao sair da reunião
com o presidente Lula.
A última correção da tabela ocorreu em 2002, último
ano do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). O reajuste foi de 17,5%.
Em agosto deste ano, o governo criou um redutor de R$ 100 aplicado à
base de cálculo do imposto. A medida, no entanto, só vale até
o final deste mês (inclusive o 13º salário).
Se vingar a correção apenas das faixas, será uma vitória
política do ministro Antonio Palocci Filho (Fazenda), que queria reajuste
menor do que 10%. Se for confirmada a expectativa dos sindicalistas, será
uma derrota do ministro.
A correção da tabela é uma reivindicação
que Lula resolveu atender para tentar fazer um agrado à classe média.
Marinho disse a Lula que a medida seria bem recebida na base da CUT, um público
tradicional do petismo que andaria desiludido com o governo.
De acordo com o ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, a correção
em 10% significará perda de arrecadação de R$ 2 bilhões
no ano que vem. A Receita Federal informou ontem à tarde que a perda
pode chegar a R$ 3 bilhões.
A proposta apresentada na semana passada pelas centrais sindicais a Palocci
previa reajuste de 10% no ano que vem. Para 2006-2007, haveria uma correção
de sete pontos percentuais mais a inflação acumulada dos últimos
dois anos do governo Lula.
Os sindicalistas afirmam que essa proposta eliminaria todas as perdas provocadas
pela inflação ao longo da administração petista.
Segundo eles, nos dois primeiros anos do mandato, a inflação acumulada
chegará a 17%.
Na reunião de ontem, porém, o governo não se comprometeu
a futuras correções da tabela. "O governo não assumiu
compromissos para o futuro, mas não se omite em manter um diálogo
com as centrais", declarou Berzoini. "Não fixamos o ritmo nem
o momento de nova correção."
A avaliação dos sindicalistas é que o reajuste de 10% para
2005 é satisfatório. "Foi razoável. O governo fica
nos devendo 6,37%", disse o presidente da Força Sindical, Paulo
Pereira da Silva.
A Receita é contra a correção da tabela com base nos índices
de inflação, pois isso representa a volta da indexação.
Além disso, avalia-se que poucas pessoas pagam Imposto de Renda no país
-cerca de 7,5% da população economicamente ativa, ou seja, 19
milhões de contribuintes. (JULIANNA SOFIA E KENNEDY ALENCAR)