20/12/2004
FOLHA DE SÃO PAULO
LEÃO GULOSO
De janeiro a setembro, proporção entre impostos e produto interno aumentou 1,7 ponto percentual em relação a 2003
Carga tributária sobe e vai a 31,3% do PIB
GUILHERME BARROS
EDITOR DO PAINEL S.A.
A carga tributária brasileira aumentou 1,7 ponto percentual do PIB (Produto
Interno Bruto -soma dos valores de todos os bens e serviços finais produzidos
no país em um período) neste ano até setembro em relação
a 2003, segundo estudo feito pelo economista José Roberto Afonso, consultor
do PSDB na Câmara dos Deputados e no Senado.
A carga tributária nos primeiros nove meses do ano correspondeu a 31,26%
do PIB. No mesmo período de 2003, ela foi de 29,56% do PIB. A grande
responsável por esse crescimento foi a elevação da alíquota
da Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social),
de 3% para 7,6%.
De acordo com o estudo de Afonso, a arrecadação da Cofins respondeu
por 47,6% do aumento da carga. A arrecadação da Cofins, que era
de 3,74% do PIB entre janeiro e setembro de 2003, subiu para 4,55% neste ano.
Dose forte
Segundo Afonso, esses números mostram que o governo errou na dose ao
ter aumentado a Cofins para promover a desoneração do imposto,
apesar de ter garantido que não iria haver aumento da carga tributária.
O próprio ministro da Fazenda, Antonio Palocci, reconheceu recentemente
o aumento da carga tributária com a mudança da Cofins. Para compensar,
o governo tem feito algumas reduções de impostos para setores
específicos.
Afonso acha essa estratégia equivocada. A seu ver, o ideal era o governo
admitir o erro e baixar o imposto. "Ao escolher alguns vencedores, o governo
pode estar cometendo um novo erro", diz.
Desde 1994, a carga tributária só caiu em um único ano
no Brasil, e foi em 2003. No ano passado, a arrecadação de impostos
no país sofreu uma queda de 0,3 ponto percentual do PIB em relação
a 2002.
Mesmo assim, essa redução da carga em 2003 se deveu, em grande
parte, ao fato de, em 2002, ter ocorrido uma arrecadação extra
de tributos que não eram pagos pelos fundos de pensão. Se fosse
excluída essa arrecadação extra, a carga tributária
teria sofrido um aumento de 0,77 ponto percentual do PIB, segundo Afonso.
Economia em alta
Há outro motivo que explica a queda de 2003. A arrecadação
tributária no Brasil é muito sensível ao comportamento
da economia. Se a economia cresce, como aconteceu neste ano, a receita de impostos
também sobe. Quando cai, a queda também é mais rápida.
Em 2003, segundo recente revisão do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística), o PIB cresceu apenas 0,5%.
Para o economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, diretor do Iedi
(Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), o fato de a carga
tributária ter novamente subido em 2004, depois da queda em 2003, mostra
que o governo recorreu de novo ao expediente de aumentar impostos para conseguir
tapar os buracos fiscais. "Não tem jeito. Alegria de pobre dura
pouco", diz Almeida.
A boa notícia, diz o economista do Iedi, é que o governo está
fazendo bom uso desse aumento da carga, ao ter desonerado tanto parte dos investimentos
como de alguns itens da cesta básica.
Segundo o economista, o próximo passo é o governo procurar reduzir
custos e não mais aumentar impostos. O principal custo, a seu ver, são
os juros. "O setor produtivo já deu sua parte. Agora é hora
de o governo sacrificar um pouco o setor financeiro", diz.
Afonso acha que o governo deve fazer uma ampla reforma tributária para
corrigir as várias distorções na área fiscal. Em
vez de promover remendos tributários, ele defende uma reforma completa.
Para ele, a atual estrutura tributária é um vulcão prestes
a explodir. "Temos de partir para uma reforma grande e abrangente."
Para ele, outro grande problema da atual estrutura tributária no país
é a arrecadação estar essencialmente concentrada nas mãos
da União, em detrimento dos Estados e dos municípios.