31/12/2004
FOLHA DE SÃO PAULO
INVESTIMENTOS
Ainda é necessário regulamentar texto e escolher projetos viáveis
Lula sanciona lei das PPPs, mas obras só virão
em 2006
ANDRÉ SOLIANI / EDUARDO SCOLESE
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Apesar de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter sancionado ontem
a Lei das PPPs (Parcerias Público-Privadas), o resultado concreto da
nova modalidade de concessão pública -o início de obras-
só deverá ser visto em 2006. Ainda é preciso regulamentar
a lei, selecionar projetos viáveis e abrir as concorrências para
os empreendimentos antes que os investimentos de fato aconteçam.
"Esse projeto que vocês votaram pensa o Brasil para mais do que uma
simples eleição, até porque, possivelmente, não
conseguiremos fazer grandes acordos até 2006", afirmou Lula após
a assinatura da lei.
As PPPs foram tratadas pelo presidente e os ministros presentes na cerimônia
como um novo marco institucional que ampliará a capacidade de investimento
em obras prioritárias para o país.
"Se o Estado não pode, vamos fazer parceria para a iniciativa privada
fazer. Do ponto de vista do povo, ele não quer saber se foi o dinheiro
do Estado ou dinheiro privado; quer saber se está vendo o filho dele
brincar numa rua sem esgoto a céu aberto, ou com esgoto tratado, água
encanada, potável, de boa qualidade", disse Lula.
"Há uma trajetória enorme. É algo que será
bastante demorado", disse o ministro interino do Planejamento, Nelson Machado,
ao comentar os trâmites necessários para que a primeira PPP seja
assinada. "Não tenho uma data."
Para o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social), Guido Mantega, "2005 será o ano de sua implementação
[das PPPs]. O governo deverá despender energia para viabilizar os primeiros
projetos". Sobre a declaração de Lula de só ter grandes
parcerias em 2006, ele afirmou: "O governo prefere ser modesto para, depois,
colher os frutos".
O Ministério do Planejamento pré-selecionou 23 projetos que estão
no PPA (Plano Plurianual) para avaliar a possibilidade de licitá-los
dentro das novas regras. O investimento para realizá-los é estimado
em R$ 13,067 bilhões.
A maioria dos empreendimentos, 19, são obras para facilitar o escoamento
das exportações e interligar centros econômicos -construção
de estradas e ferrovias e melhoria nos portos.
Mas nem todos devem ser feitos com base nas PPPs.
A seleção final dos projetos será baseada em quatro critérios:
prioridades de desenvolvimento (obras que melhorem a logística de escoamento
da produção); o interesse da iniciativa privada; a qualidade do
próprio projeto e a capacidade de geração de receitas.
As PPPs são uma nova modalidade de concessão para obras necessárias
ao desenvolvimento do país, mas cujo retorno econômico pode não
ser suficiente para estimular a iniciativa privada a assumir o empreendimento
sozinha.
A nova lei garante ao empreendedor privado um retorno mínimo para o seu
investimento. Parte do retorno será pago com a cobrança de tarifas
pelos usuários do serviço, e outra parte, pela União, Estados
ou municípios. Em alguns casos, a remuneração do investidor
poderá vir toda das contraprestações públicas.
A contraprestação só será paga pelo governo depois
de o empreendimento começar a funcionar e se as metas de qualidades estiverem
sendo cumpridas.
Para garantir que a nova concessão não implicará desequilíbrios
fiscais, a PPP limita o gasto do Estado em contraprestações a
1% da receita líquida (total arrecadado menos as transferências
obrigatórias). No Orçamento de 2005, esse percentual significaria
cerca de R$ 3 bilhões para o governo federal.
Pela lei, as instituições financeiras públicas só
podem emprestar 70% do valor do investimento. O Estado não poderá
ter o controle da Sociedade de Propósito Especifico criada para tocar
o projeto.
Além de precisar aprofundar os estudos de viabilidade econômica,
o governo ainda precisa regulamentar a lei e instituir formalmente o Fundo Garantidor
para dar início ao primeiro processo de concorrência. O decreto
de regulamentação deverá ficar pronto no fim de janeiro,
disse Machado.
Setor de construção "aprova"
a lei
DA REPORTAGEM LOCAL
Com algumas ressalvas, a Lei das PPPs tem a aprovação do setor
de construção. Para o presidente do Sinduscon (sindicato da indústria
da construção), João Claudio Robusti, o projeto é
"muito próximo do que receberia 100% do nosso apoio".
O que ainda precisa ser feito, segundo ele, é uma maior definição
dos parâmetros técnicos desejados para uma obra quando uma licitação
é aberta. "Deve-se fazer o máximo possível para evitar
julgamentos subjetivos", diz.
Para Guilherme Lacerda, presidente do Funcef (fundo de pensão da Caixa
Econômica Federal), "a legislação que saiu é
adequada". "Mas pode ser que tenha que ser adaptada para atender às
necessidades que forem surgindo."
Palocci vê "rota de crescimento"
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
No último evento público do presidente Luiz Inácio Lula
Silva neste ano -a sanção da Lei de PPPs- o ministro da Fazenda,
Antonio Palocci Filho, afirmou que o Brasil está preparado para manter
o ritmo de crescimento de 2004 nos próximos anos.
"Aquilo que foi construído pelo senhor [Lula], pelos deputados,
pelas empresas e pelos trabalhadores brasileiros nesses dois anos nos dá
as condições -institucionais de reformas, de estrutura econômica
e de musculatura- necessárias para crescermos, sim, aos níveis
que crescemos neste ano" , disse no discurso. "Temos todos os motivos
para acreditar que o Brasil entrou definitivamente numa rota de crescimento
de longo prazo", completou.
Palocci afirmou que a aprovação das PPPs completam um conjunto
de reformas que possibilitarão maiores investimentos públicos
e privados. Palocci citou a Lei de Falências como outro exemplo de reforma
importante e lembrou que algumas das medidas adotadas nos últimos dois
anos fizeram parte da agenda de outros governos. "Nós devemos reconhecer."
O presidente do BNDES, Guido Mantega, também aproveitou a cerimônia
para elogiar o governo e, sobretudo, a aprovação das PPPs. O BNDES
será a principal fonte de financiamento para as parcerias. "Quem
vier com projetos de PPPs em infra-estrutura será recebido na porta do
BNDES com tapete vermelho", disse o ex-ministro do Planejamento.