Jornal
do Brasil - 31/12/2004
Lei de parcerias é sancionada por Lula
Complexidade do novo modelo adiará grandes acordos, calcula
o presidente
LUCIANA OTONI
BRASÍLIA - A lei que institui as Parcerias Público Privadas foi
sancionada ontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Considerada
importante instrumento de reconstrução da infra-estrutura nacional,
as PPPs estabelecem um novo modelo de associação entre o governo
e a iniciativa privada para a realização de grandes obras e limitam
as condições para que agentes econômicos como os fundos
de pensão entrem no negócio das concessões públicas.
O suporte financeiro será dado pelo BNDES - que reservou entre R$ 15
e R$ 20 bilhões para o financiamento de projetos - e pelo Fundo Garantidor
- que vai reunir um patrimônio de R$ 6 bilhões para garantir as
contrapartidas da União.
Em face da complexidade da lei e do caráter de longo prazo desse novo
tipo de investimento, Lula observou que os contratos não serão
assinados de imediato:
- Não conseguiremos fazer grandes acordos até 2006. Mas independentemente
de quem seja o governante daqui a oito ou nove anos, terá um instrumento
que nossos antecessores não fizeram.
Na solenidade de sanção, o ministro da Economia, Antonio Palocci,
disse que o Brasil ''entrou na rota do crescimento de longo prazo''.
A regulamentação da lei deverá ficar pronta até
30 de janeiro, calcula o ministro interino do Planejamento, Orçamento
e Gestão, Nelson Machado.
Entre as principais obras a serem feitas sob a modalidade PPP estão as
ferrovias Norte-Sul (240km) e Transnordestina; as rodovias BR-493 (RJ) e 163
(divisa do PA com MT); o rodoanel de São Paulo; a ampliação
da BR-116 (SP-PR) e a duplicação da BR-101 (trecho RN/PB/PE/AL).
No novo modelo há dois tipos de concessões: as patrocinadas (Estado
realiza contraprestação) e as administrativas (o serviço
é prestado direta ou indiretamente à administração
pública). A patrocinada ocorrerá no caso de uma estrada privatizada
na qual o tráfego previsto não se confirmou nem há risco
de perda da rentabilidade para o concessionário. O governo entraria com
uma diferença para assegurar o retorno do investimento. Na administrativa,
a construção de uma penitenciária ilustra situação
em que o Estado pagará ao concessionário um valor específico
por presidiário.
As despesas da União terão de ser limitadas a 1% da receita corrente
líquida. As principais regras são: a participação
do parceiro em operações de crédito com recursos de empresas
públicas e sociedades de economia mista controladas pela União
é restrita a 70% do valor do projeto; no caso dos fundos de pensão,
o limite de recursos será de 80% do total do projeto.
Não serão passíveis de contrato por PPP serviços
inferiores a R$ 20 milhões e fluxos de serviço com prazos inferiores
a cinco anos. Ao instituir o novo modelo, Lula incitou investimentos:
- Aos empresários um aviso: vocês sempre se queixaram da falta
de oportunidades e nunca houve tanto espaço para os empresários
debaterem com o governo as políticas a serem implementadas. As coisas
estão postas. Cabe entrarmos em campo.
Orçamento revisto
BRASÍLIA - Menos de 24 horas após a aprovação do
Orçamento da União pelo Congresso, o ministro interino do Planejamento,
Orçamento e Gestão, Nelson Machado, comentou que algumas das receitas
votadas poderão ser revistas.
Na votação realizada na noite da quarta-feira, os deputados e
senadores aprovaram um orçamento que fixa as receitas em R$ 481 bilhões,
ou seja, um acréscimo de R$ 23,6 bilhões sobre os R$ 457,4 bilhões
previstos na proposta original do Executivo.
- É possível que haja restrição a algum conjunto
de receita. Na segunda quinzena de janeiro, faremos nova avaliação
sobre a execução orçamentária de 2005 - avaliou
o ministro interino.
Após o envio da proposta original pelo Executivo ao Congresso, o relator
do Orçamento, senador Romero Jucá (PMDB-RR), fez uma reestimativa
das receitas, elevando o valor global em mais R$ 23,6 bilhões e o valor
líquido para R$ 16 bilhões. Jucá baseou sua projeção
na previsão do excesso de arrecadação de alguns tributos
federais.
O relatório final aprovado projetou uma ampliação de arrecadação
do IPI (mais R$ 7,2 bilhões), do Imposto de Renda (mais R$ 6,3 bilhões),
da Cofins (mais R$ 1,8 bilhão), da Cota-Parte das Compensações
Financeiras (R$ 1,5 bilhão), do PIS/Pasep (R$ 1,1 bilhão) e da
CPMF (R$ 800 milhões).
- É preciso ter segurança de que as receitas serão realizadas
- ponderou Nelson Machado.
Foi contando com expectativa de excesso de arrecadação que o Congresso
e o Executivo negociaram um acordo de R$ 5,2 bilhões para ressarcir os
Estados exportadores, fixaram em R$ 300 o salário mínimo e corrigiram
a tabela do IR em 10%.
Principais pontos das PPPs
Concessões patrocinadas
Concessões de serviço público em que o Estado realiza contraprestação.
Como no caso de uma estrada privatizada na qual o tráfego previsto não
se confirmou e há risco de perda da rentabilidade para o concessionário
Concessões administrativas
Serviço é prestado direta ou indiretamente à administração
pública. A construção de uma penitenciária ilustra
uma situação em que o Estado pagará ao concessionário
um valor específico por presidiário
Despesas da União
Limitadas a 1% da sua receita corrente líquida
Participação privada
A participação do parceiro privado em operações
de crédito com recursos de empresas públicas e sociedades de economia
mista controladas direta ou indiretamente pela União foi limitada a 70%
do valor dos recursos do projeto
Fundos de pensão
Limite dos recursos para operações de crédito e contribuições
de capital, em conjunto com recursos oriundos de empresas públicas e
sociedades de economia mista e empresas controladas pela União, será
de 80% dos recursos do projeto
Fundo Garantidor
R$ 6 bilhões
Direito do financiador
Lei estabelece o direito do financiador de assumir o controle do parceiro privado
em caso de inadimplemento dos contratos de financiamento ou de queda dos níveis
de retorno a patamares que comprometam o cumprimento de obrigações
futuras