|
Segunda-feira, 30 de agosto de 2004
Valor
Propriedade Industrial
Escritórios se especializam em ações
penais para inibir a violação de direitos autorais
Processos criminais ganham espaço
no combate à pirataria
Josette Goulart De São Paulo
A Terceira Câmara Criminal da Justiça do
Rio de Janeiro reverteu uma decisão de primeira instância
e está fazendo valer o direito da Time Warner Entertainment em
processar criminalmente um comércio carioca por violação
de direitos autorais. As ações criminais no combate à
pirataria começam a ganhar maior efetividade e tendem a conquistar
mais espaço nos tribunais. Ser fichado na polícia e responder
a um processo criminal, sob risco de prisão, por si só assusta
muitos infratores e pode reduzir as violações, segundo advogados
defensores desta forma de defesa.
Há cinco anos a Time Warner está na Justiça
contra a loja Moda Íntima Serrana Shop, que, segundo denúncia
do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, violou
o direito autoral da empresa, vendendo e expondo à venda, com intuito
de lucro, peças de roupas com desenhos impressos dos personagens
Piu-Piu, Frajola e Pernalonga. O Código Penal brasileiro diz, em
seu artigo 184, que a violação de direito autoral requer
pena de três meses a um ano de detenção ou multa.
Mas o parágrafo segundo acrescenta que, se a violação
teve o intuito de lucro, a pena é de um a quatro anos de reclusão.
O juiz de primeira instância, entretanto, considerou
que a pena aplicada seria no máximo de um ano e por isso determinou
a prescrição antecipada do crime, já que, em penas
de até um ano, o crime prescreve em quatro. O advogado da Time
Warner, José Henrique Vasi Werner, do escritório Dannemann
Siemsen Advogados, recorreu da decisão. E conseguiu com que o processo
seja julgado novamente em primeira instância. De acordo com o Código
Penal, em penas de dois a quatro anos a prescrição ocorre
em oito. "Pode ser que não consigamos aplicar a pena, pela
prescrição do prazo de oito anos, mas vamos até o
fim", diz Werner. "Decisões como esta de primeira instância
incentivam a falsificação e é isso que queremos mudar."
O escritório Dannemann, especializado em propriedade
intelectual, tem investido na área criminal. Há dez anos
criou um setor específico e hoje já tem mil processos penais
correndo na Justiça. "Todo tipo de falsificação
é tratado na área criminal pelo nosso escritório",
diz Werner. "Se é direito de marca, seguimos a área
cível."
O caminho criminal é considerado por muitos advogados
como penoso e difícil de se obter bons resultados, já que
as penas aplicadas são consideradas muito curtas. Por isso, muitos
preferem seguir a área cível, por acreditarem que multas
trazem efeito mais significativo. Mas o advogado Pedro Bhering, do Bhering
Advogados, diz que muitas vezes as empresas que falsificam produtos não
têm como pagar as multas aplicadas nas condenações
cíveis. "Nestes casos, o caminho penal é muito mais
eficiente", diz Bhering. "E vemos que as ações
criminais têm aumentado."
O escritório de advocacia Moraes, Pitombo e Pedroso
também tem se especializado no assunto. O advogado Guilherme Nostre
conta que vem fazendo a parte criminal no combate à pirataria até
para outros escritórios que a terceirizam. "Os prazos são
muito curtos e os procedimentos precisam ser especializados", diz
Nostre. A sanção criminal, segundo ele, é mais grave
que a cível. "Ser processado criminalmente traz uma marca
social forte e acaba inibindo novos delitos", afirma o advogado.
José Henrique Werner, da Dannemann, afirma que
o caminho criminal também é mais simples para que se consiga
a apreensão dos produtos falsificados. "A autoridade policial
manda a equipe toda fazer a busca e, comprovada a falsificação
com o laudo pericial, se instaura um inquérito", diz Werner.
Depois o Ministério Público entra em cena para fazer a denúncia
e o caso vai à Justiça.
O combate à pirataria não é tarefa
fácil para as empresas brasileiras. Segundo afirmam alguns advogados
especializados, que preferem não se identificar, muitas vezes é
preciso escolher um pirata, autorizá-lo a continuar a falsificação
em troca de denúncias de outros piratas. "Os piratas se movem
muito rapidamente", diz um dos advogados.

|