|
Segunda-feira, 27 de setembro de 2004
Valor
Receita tira ônibus de circulação e
dobra apreensões em Foz do Iguaçu
Marli Lima De Foz do Iguaçu
Em oito meses a Receita Federal apreendeu em Foz do Iguaçu US$
18,6 milhões em mercadorias contrabandeadas, 96% mais que em igual
período do ano passado e o equivalente a um quarto de todas as
apreensões realizadas no país. Só em agosto foram
encontrados na região US$ 3,1 milhões em produtos que entraram
no Brasil de maneira irregular, o dobro do verificado em agosto de 2003.
O aumento nas apreensões acontece em um período de queda
no movimento dos chamados sacoleiros na fronteira com o Paraguai e a Argentina.
Há dez anos a cidade recebia até dois mil ônibus nas
quartas e nos sábados, dias de maior movimento na Ponte de Amizade.
Com a desvalorização do real o número baixou pela
metade e, atualmente, eles somam cerca de 200 em cada um dos dias.
A redução no movimento e os bons resultados na fiscalização
são atribuídos a uma mudança na legislação
aduaneira. A Lei 10.833/2003, a mesma que trata de alterações
na contribuição de PIS e Cofins, também prevê
obrigações aos donos de veículos que fazem o transporte
das mercadorias em zonas de fronteira.
O transportador agora precisa identificar os donos das bagagens, para
não correr o risco de ser responsabilizado pela carga e ter de
pagar multa de R$ 15 mil. Também não deve embarcar mercadorias
irregulares para evitar prejuízos maiores, como a perda do veículo.
De janeiro a agosto 204 ônibus foram tirados de circulação
e a meta dos fiscais é de que até o final do ano eles somem
pelo menos 300. Pelos cálculos dos fiscais, cada ônibus leva
cerca de US$ 30 mil por viagem e volta pelo menos uma vez por semana a
Foz.
Sem os 204 ônibus que já deixaram de circular, cerca de R$
1 bilhão em produtos deixarão de ser levados de um país
a outro por ano.
"A mudança na lei foi um divisor de águas", afirma
Carlos Trematore, chefe do Serviço de Controle Aduaneiro. Ele diz
que antes, quando uma equipe parava um ônibus, tinha de realizar
a fiscalização antes de ir atrás de outros veículos.
Muitas vezes o trabalho era feito de madrugada e levava cerca de seis
horas, período no qual muitos outros produtos passavam pelo local,
principalmente porque os motoristas costumam formar comboios para dificultar
a fiscalização. Hoje a lei permite que os ônibus sejam
lacrados para verificação posterior. Os passageiros são
avisados do horário da vistoria e podem levar o que for considerado
de uso pessoal.
Trematore conta que já foram apreendidos ônibus carregados
de pneus. Noutro foram contadas 600 caixas de cigarros, que estavam espalhadas
não só pelo bagageiro, mas pelos bancos e banheiro. Cigarros,
de acordo com o relatório de fiscalização, são
os campeões do contrabando. Em oito meses o valor apreendido soma
US$ 4,5 milhões, fora as multas, que são de R$ 2 para cada
maço.
Brinquedos também têm dado trabalho aos fiscais. Além
dos US$ 486 mil que foram retirados das mãos de sacoleiros, a Receita
reteve em julho 29 carretas carregadas com produtos vindos da China e
subfaturados. Eles foram trazidos até a Zona Franca de Iquique,
no Chile, e chegaram ao Brasil por via terrestre. Carrinhos, bonecas,
bolas e outros itens de bazar estavam relacionados nas guias de importação
com valores em média 90% inferiores aos preços reais.
Segundo o delegado José Carlos Araújo, a importação
era feita por empresas de fachada. Os produtos foram enviados ao país
por transportadoras chilenas e seriam vendidos a atacadistas brasileiros.
O desembaraço em Foz seria feito sem muitos problemas, porque a
documentação, aparentemente, era regular.
Reforma sindical terá regras para
dificultar novas representações
Cristiano Romero De Brasília
O governo Lula vai dificultar, por meio da reforma sindical, a criação
de sindicatos tanto de trabalhadores quanto patronais. A reforma, que
o governo pretende aprovar no Congresso no primeiro semestre de 2005,
instituirá regras que, além de dificultarem a fundação
de novas entidades, provocarão a extinção de milhares
delas. A expectativa é que, em cinco anos, prazo fixado para a
transição do velho para o novo regime, metade dos atuais
18 mil sindicatos desapareça.
Com o enxugamento da estrutura sindical e a fixação de novas
regras de contribuição, o governo espera reduzir de forma
significativa um dos componentes do chamado custo Brasil: o volume de
recursos pagos às entidades sindicais. Em 2002, apenas o imposto
sindical, recolhido compulsoriamente por trabalhadores e empresas, inclusive,
pelos não-sindicalizados, rendeu R$ 642,2 milhões.
Esses valores se referem apenas aos sindicatos urbanos. Uma outra quantia,
mais vultosa e não-estimada pelas autoridades, vai para os cofres
dos sindicatos. Além do imposto sindical, os sindicatos cobram
contribuições federativas e assistenciais, bem como as associativas,
que são inteiramente livres de qualquer controle. As duas primeiras
não são monitoradas pelo governo.
"A grande receita dos sindicatos não está no imposto
sindical, mas na contribuição assistencial que eles cobram
em troca de prestação de serviços", informou
o secretário de Relações do Trabalho do Ministério
do Trabalho, Osvaldo Bargas. Foi a Constituição de 1988
que instituiu a contribuição federativa, mas o dispositivo
nunca foi regulamentado. Para evitar que a cobrança atingisse todos
os trabalhadores e empresas, o Supremo Tribunal Federal decidiu que somente
os filiados deveriam pagá-la. O governo tem certeza, porém,
de que os sindicatos a estão cobrando de forma indistinta.
No caso dos trabalhadores, cujo desconto do imposto sindical é
feito em folha, Bargas estima que a soma das contribuições
pagas atinge, em média, 25% de um salário mensal. Se fosse
pago apenas o imposto sindical, o percentual seria de 3,3% do salário
mensal, equivalente a um dia de trabalho. Com a reforma, a idéia
do governo é limitá-lo a 13% de um salário mensal
líquido.
No caso das empresas, além do imposto sindical e das outras contribuições,
elas têm que pagar o equivalente a 5% das suas folhas de pessoal
ao Sistema "S" (Senai, Senac, Sesc, Sesi, Sebrae etc.). A contribuição,
chamada tecnicamente de parafiscal, é um imposto disfarçado.
Em 2002, arrecadou R$ 3,6 bilhões.
O dinheiro do Sistema "S" é para financiar programas
de capacitação profissional, mas uma parcela dos recursos
ajuda a financiar o funcionamento das federações e confederações
patronais. Mesmo sendo uma contribuição parafiscal, arrecadada
pela Previdência Social, a gestão do Sistema "S"
é feita pelo setor privado, por meio das entidades patronais.
O governo queria mexer nisso agora, já no âmbito da discussão
das reformas sindical e trabalhista, mas desistiu, antecipando-se à
forte reação das federações e confederações
empresariais. A avaliação foi a de que tratar do Sistema
"S" atrapalharia o debate dos outros temas. O assunto, no entanto,
será discutido mais adiante. "Isso está na agenda",
disse ao Valor o ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini.
Todas essas facilidades de financiamento estimularam a criação
de uma verdadeira indústria de sindicatos no Brasil. No caso das
entidades empresariais, a situação brasileira é única.
"Não existe sindicato patronal fora do Brasil. Lá fora
o que existe são associações que não dependem
do governo para sobreviver", informou Bargas. "Patrão
não precisa ter sindicato."
Antes da promulgação da nova Constituição,
o país tinha cerca de sete mil sindicatos patronais e de trabalhadores.
Como a nova Carta Magna criou regras para a estrutura sindical, entre
1988 e 1990 o governo perdeu o controle sobre a criação
dessas entidades, que precisam da autorização do Ministério
do Trabalho para funcionar.
De 1990 a 2003, foram criados 2.299 sindicatos patronais no Brasil. No
mesmo período, 5.870 entidades foram criadas pelos trabalhadores.
Somando-se as duas categorias, quase dois novos sindicatos são
criados por dia no país. Nos últimos anos, a Secretaria
de Relações de Trabalho vem dificultando a concessão
das autorizações, mas os interessados descobriram uma forma
de criar suas entidades e, assim, receber os recursos do imposto sindical:
a Justiça.
Em 2002, a secretaria recebeu 1.498 pedidos de registro, mas concedeu
apenas 282. O problema é que outras 422 entidades obtiveram o registro
por via judicial. No ano passado, 379 sindicatos foram criados dessa maneira
e, neste ano, 262 já tiveram o mesmo êxito. "Isso é
um absurdo! A maioria das organizações sindicais não
negocia", desabafou o secretário Bargas. Recentemente, a Confederação
Nacional do Comércio constatou que, dos seus 800 sindicatos, apenas
14% têm negociado acordos coletivos. Com a reforma sindical, isso
vai mudar.
Formalmente, a reforma acaba com o imposto sindical compulsório
das empresas e institui a contribuição de negociação
coletiva. A nova taxa também será obrigatória. A
diferença é que ela só poderá ser cobrada
pelos sindicatos que fizerem acordos coletivos. O valor a ser pago será
definido em assembléia, mas não poderá ultrapassar
a 0,8% do capital social de cada empresa - hoje, o limite é esse,
mas não há a obrigatoriedade do contrato coletivo. "O
sindicato só poderá cobrar se fizer um acordo coletivo.
Além disso, haverá um índice de representatividade
que servirá de parâmetro para saber se um sindicato pode
ou não existir e cobrar a contribuição", explicou
Bargas.
São três as condições, das quais duas terão
que ser cumpridas pelo sindicato: a soma do número de empresas
sindicalizadas deverá ser igual ou superior a 20% da soma do número
de empresas do setor; a soma do capital social das companhias deverá
ser igual ou superior a 20% do capital social das empresas correspondentes
à base de representação do sindicato; a soma do número
de empregados das empresas filiadas ao sindicato deverá ser igual
ou superior a 20% do número de empregados do setor.
.

|