10/11/2005

FOLHA DE SÃO PAULO

 

TRIBUTOS

Intenção é incluir parcelamento na MP da "Super-Receita", que o governo precisa aprovar até o final da próxima semana

Empresas fazem lobby para parcelar dívida
GUSTAVO PATU
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Em meio às dificuldades enfrentadas pelo governo para aprovar a medida provisória que criou a chamada "Super-Receita", o lobby empresarial articula para incluir no texto da MP um parcelamento geral das dívidas tributárias e previdenciárias das pessoas jurídicas -o terceiro desde 2000.

No Congresso, a pressão vem acompanhada de um argumento poderoso: o benefício poderia vencer as resistências dos principais partidos de oposição -PFL e PSDB- à MP, que deixará de vigorar se não for aprovada até o final da próxima semana.

Somente ontem, depois de dois dias de sessões, a Câmara dos Deputados concluiu a votação da medida provisória, que unifica as estruturas de fiscalização e arrecadação dos ministérios da Fazenda e da Previdência Social. O texto-base foi aprovado às 23h50 de anteontem, e a votação das propostas de modificação só acabou às 21h30 de ontem.

Apenas uma alteração foi aprovada, com apoio até do governo: a retirada do texto de um artigo que suspendia os processos relativos a crimes tributários quando os contribuintes aderissem a programas de refinanciamento. O relator da MP, Pedro Novais (PMDB-MA), disse que o governo, após ter incluído o artigo no texto, concluiu que a regra já constava da lei que criou, em 2003, o mais recente programa de parcelamento.

A aprovação da medida na Câmara, resultado de uma operação governista para unificar sua base, não chegou a ser uma grande vitória, porque os oposicionistas conseguiram retardar a conclusão da votação -e tempo é o maior problema do governo.

Na melhor das hipóteses, a medida só poderá ser votada pelo Senado na próxima quarta-feira, com quórum difícil em razão do feriado de terça-feira. Sem um acordo com a oposição, a votação pode se arrastar.

Foi nesse cenário que ressurgiu com força o lobby pelo parcelamento das dívidas das empresas com o fisco, que já havia sido rejeitado pelo governo na recente negociação da "MP do Bem", medida provisória que concedeu benefícios tributários a algumas dezenas de setores e operações.

A proposta foi levada ontem ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), pelo presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), deputado Armando Monteiro (PTB-PE). Calheiros disse a Monteiro que a alteração poderá facilitar a aprovação da MP. Mais tarde, o empresário discutiu o tema com o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP).

Parcelamentos
"Vou levar o assunto ao governo, mas tenho resistência à proposta e imagino que o governo também terá. Também é preciso saber se esse é um pleito do PSDB e do PFL", disse Mercadante.

O argumento dos empresários pelo parcelamento é que o mesmo benefício foi dado aos municípios e aos Estados. Os primeiros ganharam prazo de 240 meses para pagar suas dívidas com a Previdência na "MP do Bem", e os segundos tiveram o mesmo tratamento na MP da "Super-Receita".

Em 2000, o Refis (Programa de Recuperação Fiscal) permitiu parcelar as dívidas das empresas com a Receita e o INSS em até 60 meses. Em 2003, o Paes (Parcelamento Especial), conhecido como Refis 2, deu prazo de 180 meses.


Tabela do IR precisa subir 57%, vê auditor
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Os auditores fiscais da Receita Federal calculam que a tabela do Imposto de Renda das pessoas físicas precisa ser reajustada em 57,12% para repor as perdas provocadas pela inflação no período em que ficou congelada. Estudo divulgado ontem pela Unafisco (Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal) revela ainda que a reposição só do governo Lula chega a 12,61%.

As simulações realizadas pelos auditores também deixam claro que o congelamento prejudica principalmente os trabalhadores assalariados com renda mais baixa. "O efeito do congelamento é muito pior quanto menos a pessoa ganha. E a falta de reajuste fez com que milhares de trabalhadores passassem a pagar o imposto", diz o presidente da Unafisco, Carlos André Nogueira.

Desde 1996, a tabela do IR parou de ser corrigida periodicamente. De lá para cá, apenas dois reajustes foram feitos: o primeiro, em 2002, de 17,5%, e o segundo neste ano, de 10%. Os cálculos da Unafisco levam em conta os dois reajustes e tomam por base a inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo).

O governo começa a sofrer pressão de vários lados para reajustar a tabela do IR no ano que vem. As centrais sindicais já fecharam questão e querem um reajuste equivalente à inflação do governo Lula. O ministro do Trabalho e ex-presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Luiz Marinho, vem garantindo que haverá correção para 2006.

No ano passado, ele foi um dos líderes do movimento realizado pelas centrais que resultou no reajuste da tabela em 10% neste ano. Na proposta orçamentária para 2006, há uma reserva de R$ 2,6 bilhões para desoneração tributária.

Nogueira afirmou que o estudo da Unafisco já foi entregue ao relator do Orçamento, deputado Carlito Merss (PT-SC). "O relator disse que vai colocar no Orçamento um valor de renúncia fiscal para garantir pelo menos a inflação do governo Lula [12,61%]", disse Nogueira.

O deputado, no entanto, afirma que ainda não há definição. "Tenho cinco prioridades: aumento do salário mínimo, correção da tabela, aumento salarial do funcionalismo, Lei Kandir e aumento do Fundeb [fundo para financiar educação básica]", afirmou Merss.

Na Receita Federal, a correção da tabela do IR é vista com maus olhos. O entendimento é que acabou a era da indexação da economia e, portanto, a tabela não poderia ser reajustada. (JULIANNA SOFIA)