19/11/2005

FOLHA DE SÃO PAULO

 

TRIBUTOS

Sem quórum no Senado, MP que unia Receita e Previdência perde validade e Executivo agora deve enviar projeto de lei

"Super-Receita" cai em nova derrota governista

GUSTAVO PATU
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Na mais previsível de suas derrotas legislativas, o governo assistiu ontem à queda, no Senado, da medida provisória que havia criado a "Super-Receita", ao unir as estruturas de fiscalização e arrecadação dos ministérios da Fazenda e da Previdência Social.

Criada em julho como parte de um "choque de gestão" na administração pública, a Receita Federal do Brasil, conforme o batismo oficial, deixou de existir à 0h de hoje porque a MP completou 120 dias sem ter sua votação concluída pelo Congresso.

Os governistas nem sequer conseguiram fazer a votação ontem. Eram necessárias as presenças de 41 dos 81 senadores, mas, quando o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL) anunciou que não havia acordo entre governo e oposição em torno da medida, só 29 presenças estavam registradas oficialmente no plenário.

A sessão foi encerrada às 13h, ao som do Hino Nacional, cantado das galerias por um grupo de auditores fiscais da Receita Federal, corporação que mais se opôs à "Super-Receita".

O destino da medida foi praticamente selado na última terça-feira, quando o governo decidiu antecipar para o dia seguinte o depoimento do ministro Antonio Palocci Filho na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, com o objetivo de tranqüilizar o mercado em relação à sua permanência no comando da Fazenda.

Com isso, foi perdida a última e remota chance de negociar um acordo com a oposição para viabilizar a medida provisória. Planejava-se incluir no texto um programa de renegociação geral das dívidas tributárias e previdenciárias das empresas, o que poderia, em tese, atrair os votos do PSDB e do PFL.

"Dia do Basta"
A necessidade de fazer a votação no último dia de vigência do texto deu aos senadores oposicionistas o discurso para rejeitar a MP: a obstrução ganhou ares de protesto contra o sempre acusado abuso da edição de medidas provisórias pelo Executivo.

"Hoje é o "Dia do Basta'", discursou o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM). "Não podemos mais tolerar esse abuso", reforçou o líder pedetista, Jefferson Péres (AM), que propôs o fim das medidas provisórias.

Mesmo o aliado Calheiros e o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), engrossaram as críticas, embora com mais ênfase nas reclamações contra a Câmara dos Deputados, que só aprovou a MP na semana passada -o Senado tem recebido as medidas com poucos dias restantes para examiná-las.

Retórica à parte, o que determinou a queda da MP foi o conflito político entre governo e oposição em torno das investigações de corrupção. Desde a tramitação na Câmara, tucanos e pefelistas lideraram o boicote à medida, mesmo sem maiores objeções de mérito à "Super-Receita".

Já os partidos mais à esquerda foram influenciados pela resistência das corporações ligadas ao fisco à MP, em especial dos auditores fiscais da Receita, a carreira de elite -que teme um "trem da alegria" com as vantagens pleiteadas pelos demais servidores. Fiscais e auditores da Receita, que estavam em greve contra a MP, devem voltar ao trabalho na segunda-feira

Ainda ontem, os dois partidos se dispunham a elaborar um projeto de lei sobre o tema para ser votado em até 45 dias. Mais uma vez, porém, não houve acordo, porque os oposicionistas insistiram que a iniciativa deveria partir do Senado, embora a Constituição estabeleça que a criação de órgãos públicos é de competência exclusiva do Executivo. O governo disse que enviaria o projeto de lei ao Congresso na próxima semana (leia abaixo).

Para o governo, todas as alternativas para reviver a "Super-Receita" serão difíceis sem entendimento com a oposição. Em tese, além da elaboração de um projeto, é possível reeditar a MP a partir de 2006 ou, ainda neste ano, modificar o conteúdo de outra MP em tramitação no Congresso -em qualquer hipótese, o texto teria de passar pelo Senado, onde o governo é minoritário.

Nos próximos dias, o Congresso terá de aprovar um decreto legislativo para tornar válidos os efeitos da MP durante seu período de vigência. Caso contrário, um contribuinte poderá, por exemplo, contestar judicialmente uma multa aplicada pela ontem extinta Receita Federal do Brasil.

Projeto sai na semana que vem

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Com a perda de validade da MP da "Super-Receita", o ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner, disse que o governo enviará projeto de lei ao Congresso no início da semana que vem, com o mesmo teor do texto que havia sido aprovado na Câmara.

O texto vai tramitar no Congresso em regime de urgência constitucional -se não for aprovado ou rejeitado em até 45 dias, nenhuma outra proposta pode ser votada na sua frente. O governo tem a esperança de que o projeto seja aprovado até o final deste ano e estuda usar um expediente conhecido como "urgência urgentíssima", em que o texto é votado rapidamente com acordo.

No começo da semana que vem, o governo vai editar um decreto autônomo, para permitir arranjos administrativos e regulamentar os efeitos jurídicos da MP no tempo que ela vigorou.

Wagner culpou interesses políticos pela derrota. "Considero contraditória a posição dos senadores de oposição, que querem investigar corrupção em CPIs, mas negaram quórum para que o Estado se organize melhor para combater a sonegação fiscal."

TRIBUTOS

Receitas Federal e Previdenciária afirmam que integração entre órgãos continua

Para governo, "unificação é irreversível"
JULIANNA SOFIA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Apesar do arquivamento da medida provisória da "Super-Receita" no Congresso, as secretarias da Receita Federal e da Receita Previdenciária informaram ontem por meio de nota que o caminho da unificação é "irreversível". Segundo o comunicado, estudos estão sendo feitos para garantir a continuidade da integração.

"[As secretarias] envidarão esforços para preservar os benefícios decorrentes das medidas implementadas na vigência da MP [Medida Provisória 258]. Esclarecem, igualmente, que estão sendo estudadas formas de dar continuidade ao processo de unificação", diz a nota, que ressalta ainda o aumento da arrecadação verificado nos meses de agosto e setembro com a criação do órgão.

A "Super-Receita" também informou que serão adotadas as medidas necessárias para reduzir o impacto da perda da validade da MP e para que os contribuintes não tenham prejuízo.

Com a fusão, dez pontos de atendimento ao contribuinte já tinham sido unificados e 30 agências estavam em fase de integração. A "Super-Receita" já tinha anunciado a unificação da agenda tributária para facilitar a vida do contribuinte na hora de cumprir suas obrigações com o fisco.

Além disso, várias ações fiscais em empresas estavam sendo desenvolvidas de forma conjunta, assim como a divulgação do resultado da arrecadação de tributos federais e contribuições previdenciárias.

Desde a fusão, vários atos administrativos -decretos, portarias e instruções normativas- foram editados para uniformizar procedimentos. Um exemplo é a unificação do prazo da Certidão Negativa de Débitos em 180 dias. Antes, na área previdenciária a validade da certidão era de 60 dias.

Com a perda de validade da MP, há dúvidas sobre o destino dos funcionários que foram realocados e dos cargos criados. Na nota à imprensa, a secretaria declarou que os concursos para os cargos de auditor fiscal e técnico serão realizados e "possíveis adaptações" estão sendo analisadas.

Alguns setores das duas secretarias já tinham sido unificados, como as áreas de contencioso, corregedoria e inteligência (pesquisa e investigação). Um plano diretor da Receita Federal do Brasil também estava sendo elaborado para orientar as ações do órgãos nos próximos cinco anos.

Disputa política
O presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B-SP), culpou ontem a disputa política entre governo e oposição pelo fracasso da votação da medida provisória da "Super-Receita".

"A frustração é do país e da população. Uma medida de interesse da sociedade deixou de ser votada por conta de ambições partidárias exacerbadas. Vejo isso com gravidade", disse.
Apesar de ser aliado do governo, Aldo preferiu não culpar apenas a oposição pelo ocorrido. "A oposição não pode impedir o governo de governar e o governo não pode impedir a oposição de fiscalizar", disse.

Aldo afirmou que a disputa faz parte do jogo democrático, mas não pode atrapalhar o país. "A democracia não suporta quando os interesses do país são sacrificados", completou.

Auditores e técnicos vão encerrar greves
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Auditores e técnicos da Receita Federal encerram vários meses de greve e voltam ao trabalho na próxima segunda-feira. As duas categorias fizeram paralisações devido à edição da medida provisória 258, que criou a chamada "Super-Receita".

O Unafisco (Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal), que vinha fazendo paralisações contra a MP 258 desde o início de setembro, informou que realizará assembléia na segunda-feira para decidir os rumos do movimento, que era motivado pela MP.

O Unafisco era contra a fusão das secretarias por vários motivos. Um deles é o temor de que a unificação comprometa a receita previdenciária, usada para pagar aposentadorias e pensões.

Os técnicos, que vêm fazendo paralisações desde 21 de julho, também voltam ao trabalho na segunda . Assembléia a partir do dia 26 discutirá o movimento.

TRIBUTOS

Queda da "Super-Receita" é último episódio de coleção de derrotas do governo; reforma tributária está parada desde 2003

Agenda econômica fracassa no Congresso
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

A derrocada da "Super-Receita" fecha, com antecedência, um ano perdido para a agenda legislativa da equipe econômica, que começou na ausência de diretrizes e terminou na desarticulação de sua base aliada e das relações com a oposição.

Só em medidas provisórias, o instrumento legislativo de aprovação mais fácil e rápida no Congresso, foram três derrotas -sem contar a "MP do Bem", de benefícios tributários, que chegou a expirar e só foi recriada com uma série de concessões à oposição.

Logo no início do ano, antes da crise política provocada pela descoberta de ilícitos envolvendo o PT e o governo, caiu no Congresso o pacote de aumentos de tributos embutido na MP 232.

Editada no final do ano para corrigir a tabela do Imposto de Renda, a medida trazia também uma série de propostas da Receita para compensar o benefício aos contribuintes. Em meio à reação de entidades da sociedade civil, só a correção da tabela do IR passou no Congresso.

Em junho, expirou sem ter sido votada pelo Congresso a MP que criava a Previc (Superintendência Nacional de Previdência Complementar), que trataria da supervisão dos fundos de pensão. O mesmo aconteceu, em outubro, com a "MP do Bem".

Enquanto isso, projetos ainda mais importantes seguem estacionados no Congresso, como a reforma tributária, a reforma sindical, as novas legislações das agências reguladoras e do sistema de defesa da concorrência.

Nem devem chegar ao papel a reforma trabalhista, a autonomia do Banco Central e -no exemplo mais atual- o aprofundamento do ajuste fiscal de longo prazo que levou ao conflito entre os ministros Antonio Palocci (Fazenda) e Dilma Rousseff (Casa Civil).

Embora a crise política seja, merecidamente, apontada como a grande causa da paralisia da agenda legislativa econômica, o problema já existia no início do ano, quando o governo não conseguia definir suas prioridades no Congresso.

Divergências com o PT e os aliados mais à esquerda fizeram empacar as propostas de mudança nos direitos trabalhistas e de concessão de mandatos fixos aos dirigentes do BC, prioridades entre as chamadas reformas institucionais postuladas pela ala liberal da Fazenda.

Anunciada na campanha eleitoral como a reforma constitucional mais urgente no governo Luiz Inácio Lula da Silva, a tributária está desde o final de 2003 parada na Câmara, à espera de um acordo com os governadores.
(GUSTAVO PATU)

 

ANÁLISE

Fusão traria maior eficiência administrativa e menor burocracia
MARCOS CÉZARI
DA REPORTAGEM LOCAL

Ainda é prematuro dizer se a rejeição à criação da "Super-Receita" já é um fato consumado. Entretanto, se ela se concretizasse, haveria ganhos para a administração pública e os contribuintes -ainda que não imediatos.

Pelo lado da administração, a rejeição não é um fato consumado, ou seja, não dá para dizer que a "Super-Receita" já morreu.

Pelo lado dos contribuintes, muita coisa ainda estava para ser feita, especialmente quanto à redução da burocracia. Daí não se poder dizer, com absoluta certeza, se haveria ganhos ou perdas.

Com a "Super-Receita", haveria ganhos de eficiência da máquina administrativa -em outras palavras, mais arrecadação e menos sonegação. Com o passar do tempo, isso levaria a uma menor carga tributária para a sociedade.

O advogado Wladimir Novaes Martinez, especialista em legislação previdenciária, dá um exemplo de como seria esse ganho. Hoje, o salário de um trabalhador é a base de cálculo de três tributos: Imposto de Renda, contribuição ao INSS e FGTS -este último, fiscalizado pela Caixa.

Apenas no caso da contribuição ao INSS paga pelo trabalhador há limite para o cálculo, hoje fixado em 11% sobre R$ 2.668,15. No caso da contribuição patronal (20% mais adicionais) não há limite.

Assim, o IR, o FGTS e a contribuição da empresa têm a mesma base de cálculo. "Nesse caso, um único fiscal poderia constatar se há ou não sonegação de algum desses tributos." Martinez diz que não tem dúvida: "A fusão dos dois órgãos só traria ganhos para a arrecadação tributária do país, pois a eficiência seria maior".

Outro exemplo dado pelo especialista para comprovar sua tese tem quase 40 anos. Em 1966, o decreto-lei 72, unificou, a partir de 1º de janeiro de 1967, os seguintes institutos: Iapfesp (servidores públicos), IAPB (bancários), IAPC (comerciários), Iapi (industriários), IAPM (marítimos), Iaptec (transporte de cargas), Sasse (economiários) e Funrural (trabalhadores rurais). Todos foram unificados num só: o atual INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

"Essa fusão só trouxe ganhos ao país. Por isso, a criação da "Super-Receita" também traria ganhos."

Martinez lembra ainda que, se houver a fusão, com o passar do tempo outras medidas iriam agregar vantagens para a máquina administrativa e os contribuintes. Ele cita a unificação de órgãos de julgamento (Junta de Recursos e Conselho de Contribuintes), a unificação da legislação e a questão dos prazos de prescrição (hoje, dez e cinco anos).

O advogado Lúcio Abrahão, sócio-diretor da BDO Trevisan, concorda que, independentemente de ser criada por meio de MP, o efeito prático da "Super-Receita" era uma maior eficiência da máquina administrativa.

Mas Abrahão diz que tem dúvida se um fiscal do INSS entenderia o mesmo que um da Receita, e vice-versa. "Cada órgão tem sua legislação própria. Isso exigiria um requinte maior para fiscalizar e orientar, detalhe importante no processo de fiscalização."

O advogado ressalta que, com a centralização das arrecadações, seria preciso diminuir a burocracia das obrigações acessórias que as empresas têm de cumprir todos os meses -preenchimento de guias, formulários etc.
"Sistemas complexos são mais difíceis de fiscalizar. A simplificação traria aumento automático da arrecadação", afirma Abrahão.

O Unafisco - Delegacia Sindical São Paulo diz que a derrubada da MP foi uma decisão acertada do Senado. "A MP 258 era uma afronta ao país, pois a fusão, da forma proposta pelo governo, colocou em risco o direito de 80 milhões de brasileiros."

Para a Receita Federal, "lançar teses mirabolantes, que pregam catástrofes, sem um mínimo de consistência, com o único fim de buscar o sensacionalismo negativo, é um desserviço à sociedade".