Greve dos auditores afeta importações
Marcelo Rehder - Da agência estado
Principal pólo de eletroeletrônicos do País, a Zona Franca de Manaus começa a parar por falta de componentes importados, em razão da greve dos auditores da Receita Federal, que completará hoje 17 dias. Com estoques praticamente zerados, pelo menos oito indústrias já tinham sido forçadas a paralisar algumas de suas linhas de produção até hoje. Por isso, cerca de 7 mil trabalhadores foram colocados em licença remunerada e estão em casa esperando que a situação se normalize.
As informações são do Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (Cieam) e do sindicato local dos metalúrgicos. Entre as empresas mais afetadas pela falta de componentes estão a Samsung, a Panasonic e a CCE, fabricantes de equipamentos eletroeletrônicos de áudio e vídeo, a montadora de notebooks Digitron e a Thomson, líder na fabricação de aparelhos receptores de satélite para TV por assinatura.
"Temos cerca de US$ 40 milhões em equipamentos retidos nos depósitos alfandegados de Manaus", informou Maurício Loureiro, presidente do Cieam. Segundo afirmou, a entidade deu entrada ontem em um mandado de segurança na Justiça Federal, com pedido de liminar para liberação imediata das cargas das empresas da Zona Franca que se encontram retidas nas aduanas. "Estamos num ritmo de produção muito acelerado e a falta de componentes começa a criar gargalos nas fábricas".
ELETROELETRÔNICOS. A Eletros, entidade que reúne os fabricantes de eletroeletrônicos instalados no País, já alertou para o risco de a greve dos auditores fiscais da Receita provocar a falta de alguns produtos para o Dia das Mães, segunda melhor data comercial para diversos setores da economia.
Os auditores fiscais reivindicam do governo federal um plano de carreira semelhante ao concedido aos delegados da Polícia Federal e aos advogados da União. Com isso, passariam a ganhar até R$ 19,7 mil por mês. Hoje, os salários da categoria variam de R$ 10.150 a R$ 13.500.
"Não queremos equiparação, queremos o topo do Executivo, porque somos uma carreira essencial para o Estado e isso é reconhecido constitucionalmente", diz Luiz Fuchz, presidente da Delegacia Sindical em São Paulo do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal.
Para o presidente do Cieam, o governo tem que agir com pulso forte para acabar com a greve. "Ou negocia e resolve logo ou faz esses caras voltarem a trabalhar". Na sua opinião, dos dias parados deveriam ser descontados nos salários. "Na minha fábrica, quando o funcionário falta, eu desconto", diz Loureiro. "Os auditores ganham muito, trabalham razoavelmente e se aposentam muito bem; portanto, não têm que fazer greve, têm que trabalhar muito mais".
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas, Valdenir Santana, diz que a greve prejudica os trabalhadores da Zona Franca. "Somos a favor do movimento, mas eles poderiam fazer uma greve inteligente, para não prejudicar outros companheiros, que serão obrigados a fazer hora extra".
Ocupação dos terminais no Porto de Santos sobe a 90%
Rejane Lima - Da agência estado
Acontinuidade da greve dos auditores da Receita aumenta os prejuízos do segmento portuário de Santos e ameaça paralisar as operações no Porto de Santos. De acordo com o Sindicato das Agências de Navegação Marítima do Estado de São Paulo (Sindamar), em média, a ocupação dos terminais de Santos está com 90% de lotação.
"O que está acontecendo é que com o espaço sendo ocupado pelo volume de carga de importação, a carga de exportação tem impacto", afirma o vice-presidente do Sindamar, José Roque, acrescentando ainda que a lotação causa falta de mobilidade nos terminais, o que torna a operação dos navios mais lenta. No entanto, Roque explica que ainda não há filas de navios para atracar e que as embarcações estão saindo cheias. "Apesar de a ocupação dos navios já estar um pouco inferior ao normal", afirma.
PERDAS. Roque prefere não contabilizar as perdas financeiras, porém afirma que os armadores deixam de ganhar com os fretes e os agentes perdem receita. "Há prejuízo para o exportador e o importador, mas por enquanto é administrável". O Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de Santos (SDAS) também reclama de prejuízos. De acordo com o presidente Claudio de Barros Nogueira, o desembaraço de diversos contêineres está atrasado e os custos dos importadores com armazenagem já aumentou 25%. "Daqui a pouco já vai começar a falta contêiner para a exportação", completa.
Até o Sindicato das Empresas de Transporte Comercial de Carga do Litoral Paulista (Sindisan) já registra prejuízos com a greve. Segundo o presidente, Marcelo Rocha, a lotação dos terminais com cargas aguardando o desembaraço faz com que faltem contêineres para o transporte rodoviário. Segundo ele, foi divulgado anteontem em reunião na Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), que os terminais da Tecondi e da Rodrimar estão 100% lotados, e que o terminal 37, da Libra, está com grande parte ocupada. "Todos os segmentos do porto sofrem com a greve", completa Roque, do Sindamar.
Fecomercio teme alta de preços
Ana Luísa Westphalen - Da agência estado
A greve dos auditores fiscais da Receita Federal pode levar a um aumento de preços no varejo. De acordo com a Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP), problemas de abastecimento na indústria geram uma reação em cadeia que influi na oferta de produtos e na geração de empregos".
PREJUÍZOS. No entanto, a entidade pondera que, neste momento, é impossível dimensionar os prejuízos diretos ao varejo ou estimar eventuais problemas na oferta de itens relacionados ao segmento de eletrodomésticos e eletroeletrônicos.
Os auditores fiscais estão em greve desde o último dia 18. A categoria reivindica equiparação com os salários pagos na Polícia Federal e na Advocacia-Geral da União.
Restituições do Imposto de Renda podem atrasar
Rosangela Dolis - Da agência estado
A greve dos auditores da Receita Federal do Brasil, hoje em seu 17º dia, não afeta a entrega e o processamento da declaração de Imposto de Renda deste ano, mas está dificultando a vida do contribuinte que precisa tirar dúvidas em plantões fiscais da Receita e vai atrasar ainda mais o processamento de declarações de anos anteriores retidas em malha fina, retardando restituições de imposto. "O serviço de malha fina de anos anteriores a 2008 está paralisado e a greve poderá afetar a liberação de lotes de restituição residuais", explica Gelson Myskovsky, primeiro vice-presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Unafisco).
A Unafisco, em observação a jurisprudência firmada nos tribunais de que a atividade do auditor é essencial, está mantendo um quadro de 30% em atividade nas unidades da Receita. O sindicalista explica que a entrega da declaração deste ano não sofre prejuízo porque a quase totalidade é enviada pela internet, não envolvendo, portanto, o trabalho de auditores. Segundo Myskovsky, os processamentos dessas declarações, que devem ser entregues até dia 30, vão começar somente em maio, mas o trabalho todo, que consiste, nessa primeira fase, em separar declarações para malha fina, é informatizado. "Os auditores, de fato, só fazem o serviço de análise de declarações que caíram na malha fina, e para as declarações deste ano essa tarefa só terá início em janeiro de 2009 ", ele diz.
ANÁLISE. Os auditores teriam de estar agora, no entanto, envolvidos na análise de declarações de anos anteriores que caíram na malha. Com a greve, esse trabalho está paralisado. "Os auditores na ativa, que correspondem a 30% do total, estão se dedicando a apenas receber documentação de contribuintes notificados antes da greve, mas não estão fazendo novas notificações", diz Myskovsky.
Já nos plantões fiscais da Receita o atendimento de contribuintes por apenas 30% do quadro de auditores está provocando demora. "Esse é o maior problema para o contribuinte, que nesta época do ano precisa de um plantão de auditores para tirar dúvidas e desta vez vai ter o atendimento prejudicado", diz Luiz Fuchs, presidente da Delegacia Sindical do Unafisco em São Paulo. A greve está afetando também a fiscalização da Redeita porque, segundo Myskovsky, os auditores não estão aceitando novas ordens de fiscalização.